Livro nº 142: Anna Kariênina, de Liev Tolstói

 

Depois do sucesso pela extinta editora Cosac Naify, Anna Kariênina de Liev Tolstói (com a tradução excelente de Rubens Figueiredo) acaba de voltar às livrarias pela editora Companhia das Letras.

Prepare seu bolso, e sua coluna. Anna Kariênina é um romance mastodôndico, de mais de oitenta reais e com oitocentas e tantas páginas.

Mas não há razão para fugir correndo do grande clássico. De chato e sonolento ele não tem nada. Tanto é que foi originalmente publicado em folhetins, as “telenovelas” no século XIX. E garantiu grande sucesso comercial para a revista O Mensageiro Russo, entre janeiro de 1875 e abril de 1877.

 

 


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Na época da publicação de Anna Kariênina, Tolstói já era um escritor consagrado pelo também gigantesco romance Guerra e Paz. Hoje, juntamente com Crime e Castigo e Irmãos Karamázov, ambos de Fiódor Dostoiévski, estas obras disputam o primeiro lugar entre os livros mais importantes da história da literatura russa.

E o único desses quatro que tem uma protagonista mulher é justamente Anna Kariênina. O nome dela parece ter se tornado, inclusive, um sinônimo de “mulher adúltera” na literatura.

Mas que pouca gente sabe – somente aquelas que de fato sentam para ler o livro – é que Anna Kariênina possui dois enredos principais, histórias intercaladas e espelhadas. Tolstói até cogitou batizar o livro de Dois Casamentos ou Dois Casais.

De um lado, temos Anna, a respeitável dama da sociedade de São Petersburgo que se apaixona por um jovem oficial do exército e coloca o casamento com um alto funcionário do governo em risco.

 

Liev Tolstói ao lado da esposa, Sofia.

 

E de outro, temos a figura de Kóstia Liévin, um herdeiro de terras que vive uma crise existencial e procura reencontrar a paz através do trabalho no campo, da filosofia e do casamento baseado no amor.

Tolstói era um escritor que acreditava no poder educativo e transformador da literatura. Ao contrapor dois casamentos (um fadado ao fracasso e outro à felicidade), ele desejava transmitir uma mensagem de desaprovação do adultério e exaltação dos verdadeiros valores cristãos.

Mas a impressão que eu tive foi de  que, ao longo da escrita, o próprio Tolstói se solidarizou com Anna Kariênina.

Uma das mulheres mais fortes e fascinantes de todos os tempos na história da literatura, nem mesmo o próprio Tolstói conseguiu condená-la ao papel de vilã, ou “a mais depravada das mulheres”.

No cinema, a personagem de Anna Kariênina foi interpretada por divas como Greta Garbo, Vivien Leigh e, mais recentemente, Keira Knightley – a minha adaptação favorita, dirigida por Joe Wright em 2013.

Se a literatura do século XIX condenou as mulheres adúlteras a destinos horríveis, o cinema do século XX parece ter se rendido ao seu charme e coragem inigualáveis.

Livro nº 141: O Estrangeiro, Albert Camus

 

Publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, O Estrangeiro de Albert Camus é hoje o livro recordista de venda em formato de bolso na França.

É praticamente impossível imaginar que um estudante termine Ensino Médio francês sem precisar se debruçar pelo menos uma vez nos mistérios do protagonista Mersault, o funcionário de uma exportadora na Argélia que um belo dia sente a necessidade de matar um árabe na praia.

 

 


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Frequentemente elevado ao mesmo nível de intelectuais como Jean-Paul Sartre e Marcel Proust, o escritor franco-argelino Albert Camus sempre negou o título de filósofo.

No entanto, nas páginas de O Estrangeiro (assim como em outras importantes obras, como A Queda, A peste e O mito de Sísifo) ele se apoia numa narrativa ficcional para fazer a exposição de um conjunto de ideias que podem, sim, ser definidas como filosofia.

No caso de O Estrangeiro, trata-se da filosofia do absurdo – ou absurdismo.

Através da insensibilidade robótica de Mersault – que não chorou nem mesmo no funeral da mãe – Albert Camus provoca no leitor uma sucessão de sentimentos desagradáveis, que passam da indignação, ao desprezo, à desesperança com o futuro da humanidade.

 

Retrato de Albert Camus.

 

No entanto, há quem leia na filosofia de O estrangeiro uma mensagem de conforto. Se nada no mundo faz sentido, se Mersault está certo e todas as regras morais não passam de invenção das nossas cabeças imaginativas, então não há motivo para se sofrer.

Na sua trajetória infame, Mersault alcança um tipo de superação que é de botar inveja em qualquer um de nós, que passamos a leitura inteira a desprezá-lo por sua falta de sentimentos pela humanidade. Mersault supera o medo da morte.

E dessa revelação, meus amigos, todos nós temos muito o que aprender.

 

Livro nº 140: Uma Criatura Dócil, de Fiódor Dostoiévski

 

Nem todo mundo sabe, mas o escritor russo Fiódor Dostoiévski, famoso por calhamaços filosóficos como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov O idiota, também teve destaque no campo das narrativas curtas.

Geralmente, são aqueles contos que a gente consegue terminar de ler em uma tarde, mas que nos dão uma porrada tão forte no estômago que ficamos sem ar por muitos dias. É exatamente o caso de Uma Criatura Dócil.

 

 


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Dostoiévski publicou este trabalho na última fase da carreira, no ano de 1876. A esta altura, ele já tinha se tornado um autor reconhecido pelos seus grandes romances, podendo realizar o desejo antigo de dirigir própria revista. Batizada Diário de um Escritor, o veículo se notabilizou tanto quanto os romances, protagonizando os mais importantes debates intelectuais de seu tempo.

Mas também havia espaço reservado à ficção, como é o caso de Uma Criatura Dócil. No enredo, um agiota sem escrúpulos se torna viúvo repentinamente e decide refazer, num relato febril, o caminho do próprio matrimônio desde o primeiro encontro até a morte trágica da jovem esposa.

Como em outras obras do escritor, desespero e culpa marcam o tom na narrativa. Aliás, poucos autores na história da literatura conseguiram reproduzir tão bem os caminhos tortuosos da agonia humana quanto Dostoiévski.

Enquanto agiote tenta entender a morte da mulher, nós leitores somos nos debatemos a cada página, como marionetes frouxas, tentando nos manter de pé e não cair nos artifícios de argumentação deste homem atormentado pela culpa.

Quem afinal de contas é o culpado pela morte da mulher? Essa história poderia ter desfecho diferente?

É difícil terminar a leitura de Uma Criatura Dócil sem sentir um gosto de amargo de bile na boca. Mas tem horas que é exatamente desse tipo de literatura que você mais precisa.

Livro nº 139: O livreiro de Cabul, de Asne Seierstad

 

Nova York, 11 de setembro de 2001. Quando Osama bin Laden comandou o ataque às torres gêmeas do World Trade Center, o mundo abriu os olhos para a atuação de uma das organizações terroristas mais perigosas dos últimos tempos: a Al Qaeda. O grupo, descobriu-se depois, era apoiado pelo governo do Afeganistão, na época comandado por uma facção político-religiosa chamada Talibã.

Cabul, novembro de 2001. A reação aos ataques nos Estados Unidos foi imediata. Em poucas semanas, o exército americano colocou fim à ditadura militar e religiosa do Talibã, que havia cinco anos violava os direitos mais básicos de homens e mulheres afegãs sem que quase ninguém no Ocidente soubesse ou se importasse.

Com o exército, vieram também os jornalistas de guerra de todas as partes do mundo. Entre eles, uma norueguesa chamada Asne Seierstad.

Por algumas semanas, Asne acompanhou a movimentação de soldados americanos pelos campos minados do interior do Afeganistão. Mas, depois que o Regime Talibã finalmente caiu, ela se mudou para a Cabul e fez amizade com um tipo muito incomum de comerciante num país onde três quartos da população não sabe ler: um livreiro.

 

 


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Foram meses de convivência, tanto com o livreiro quanto com sua família – as duas esposas, os filhos, sobrinhos e primos. Por ser mulher, Asne teve acesso à intimidade da ala feminina de uma família afegã, um privilégio reservado a muito poucos.

Uma típica mulher afegã, nos dias atuais, não tem segurança para sair à rua sozinha, deve esconder-se sob burcas quentes e apertadas toda vez que sai de casa, e só tem permissão para conversar em particular com homens de sua própria família. As infratoras correm o risco de sofrer abuso sexual, espancamentos e mutilações. Ou, simplesmente, de serem assassinadas.

O resultado da viagem de Asne Seierstad na capital do Afeganistão é um livro-reportagem desconcertante. Leitores de todo o planeta, que fizeram de O Livreiro de Cabul o maior best-seller de não ficção da literatura norueguesa, se perguntaram: como é possível que o mundo ainda submeta mulheres a tanto perigo, humilhação e dependência?

Uma leitura que lançou luz sobre uma cultura milenar e castigada por guerras que já duram décadas. Dezesseis anos depois, O livreiro de Cabul continua sendo uma obra atual e necessária.