Livro nº 51: Tia Julia e o Escrevinhador, Mario Vargas Llosa

 

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O que que você mais gosta de escutar no rádio? Músicas, notícias? Ah, já sei, você é do tipo que adora ouvir o futebol aos domingos?

Bom, se você viveu os anos 1950, você talvez lembre que um dos programas de rádio mais populares entres ouvintes, principalmente as mulheres, não eram exatamente desses.

O que quase todos gostavam de ouvir eram as radionovelas, que contavam histórias mirabolantes, rocambolescas, cheias idas e vindas e diálogos amorosos arrebatados… É, pensando bem, até que hoje em dia as novelas da televisão não são tão diferentes assim.

 

 


 

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E o livro que eu li nessa semana, pode acreditar, transformou novelas em literatura. E das boas.

É o “Tia Júlia e o Escrivinhador”, um romance publicado em 1977 pelo escritor peruano Mário Vargas Llosa, que hoje em dia faz parte do seleto grupo dos escritores condecorados com o prêmio Nobel da Literatura.

 

Retrato recente de Mario Vargas Llosa.

Retrato recente de Mario Vargas Llosa.

 

Nesse romance auto-biográfico, Vargas Llosa intercala uma série de tramas folhetinescas divertidíssimas com a história real do seu primeiro casamento – que, na verdade, até parece coisa de novela, porque ele se casou (escândalo dos escândalos!) com a própria tia.

E enquanto ele enfrenta a repressão da família, o jovem “Varguitas” vai aprendendo o ofício de escrever com um improvável professor – o autor de radionovelas Pedro Camacho, que é celebrado pelos jornais de Lima da época como “experimentado libretista de imaginação tropical e palavra romântica, intrépido diretor sinfônico de radionovelas e versátil ator de voz caramelada”.

Pedro Camacho (personagem supostamente inspirado em um autor de novelas boliviano chamado Raúl Salmón) foi o primeiro escritor profissional que o jovem Mario Vargas Llosa conheceu na vida, e ele ficou impressionado. Camacho era um obstinado, um profissional tão entregue ao trabalho que ele próprio fazia questão de escrever, dirigir e atuar em todos os folhetins que ele criava. E como eram quase dez por dia, Camacho tinha que encarar 16 horas diárias de trabalho!

 

Retrato de Raúl Salmón, folhetinista que teria inspirado o personagem Pedro Camacho.

Retrato de Raúl Salmón, folhetinista que teria inspirado o personagem Pedro Camacho.

 

Com Pedro Camacho, Vargas Llosa compreendeu que um escritor não pode ficar trancado no alto de um torre de marfim observado a multidão com superioridade. Quem escolhe esta profissão precisa enfrentar uma rotina intensa de trabalho, tem que observar as pessoas simples com humildade e saber identificar os desejos e anseios das multidões.

Com uma narrativa divertida e construída à perfeição, Vargas Llosa faz de “Tia Julia e o Escrevinhador” uma verdadeira homenagem a esta arte tão popular, e tão latino-americana – as novelas.

Book Haul de Novembro + Sorteio

 

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Quanta coisa legal eu recebi nesse mês! Teve livros de vários tipos diferentes… e um deles, que veio dentro de uma caixa CHEIA de brindes, eu vou sortear para vocês! Confira as regras no vídeo de Book Haul:

 

 

E para participar do sorteio, compartilhe no Facebook ou no Twitter o seu vídeo favorito do Ler Antes de Morrer, sem esquecer da hashtag #lerantesdemorrer. Quanto mais vídeos você compartilhar, mais chances de ganhar!

O resultado sai na terça-feira que vem, dia 1º de dezembro.

Boa sorte a todos!

 


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50º livro: O apanhador no campo de centeio, J. D. Salinger

 

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Se você procurar na na internet qualquer lista dos melhores livros do século XX, dificilmente o nosso livro de hoje não vai estar entre as 50 primeiras posições.

Aliás, é possível que ele esteja até entre as 10 primeiras posições: “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger.

 

 


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O Apanhador no Campo de Centeio (em português)
The Catcher in the Rye (original em inglês)


 

Dá até um pouco de insegurança de falar sobre um livro tão idolatrado, e que ajudou a modelar tantas gerações ao redor do mundo. Qualquer elogio, aqui, é superficial.

Mas se você nunca leu, eu já sei qual é a primeira coisa que eu preciso dizer: apesar do nome, “O apanhador no campo de centeio” não tem nada a ver com agricultura. Pelo contrário, ele se passa nas ruas, bares, hotéis e parques de uma das maiores metrópoles do mundo, a cidade de Nova York.

 

Retrato de J. D. Salinger.

Retrato de J. D. Salinger.

 

O protagonista e narrador é o jovem Holden Caulfield, um garoto de dezesseis anos que critica a hipocrisia dos adultos no fim dos anos 40, muito antes de quando ser “um adolescente rebelde” virou moda.

Pro trás de uma linguagem simples e coloquial, O apanhador no campo de centeio é um daqueles livros cheios de mistérios e temas complicados: a perda da inocência, as maneiras de lidar com a morte, a descoberta (e medo) da sexualidade, a depressão.

 

Holden Caulfield.

Holden Caulfield.

 

São questões que, eu já vou logo avisando, não têm resposta pronta e nem óbvia. Mas isso não é um problema… mesmo sem compreender tudo o que acontece na cabeça do Holden, a gente acaba gostando muito dele, e torcendo para ele encontrar um jeito de ser feliz.

Apesar de parecer ser só um garoto desajustado, o Holden Caulfield tem um doçura e uma inocência típicas de criança pequena. E o maior medo dele é perceber que ele está crescendo – e que está sendo lançado, sozinho, aos leões do mundo dos adultos.

O que rolou no encontro da Livraria Cultura

 

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Adorei conhecer alguns de vocês pessoalmente!

Conforme eu anunciei aqui, neste sábado, fui convidada para participar de um debate chamado “A Revolução Booktuber”, organizado pela editora Faro na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.

Além de mim, participaram do evento a Mell Ferraz, do blog e canal Literature-se, e o pessoal do canal Cabine Literária, um dos maiores canais de literatura no YouTube brasileiro.

 

 

Claro que não deu para mostrar tudo o que rolou no encontro – que durou mais de duas horas! – mas eu tentei editar um tira-gosto de onze minutinhos para quem não pôde ir e ficou curioso.

Até o próximo encontro!

 


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49º livro: A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstói

 

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Um livro não precisa ser longo pra se marcar a nossa vida para sempre.

O Velho e o Mar do Ernest Hemingway tem menos de cem páginas. A Metamorfose do Franz Kafka, também. E mesmo assim são considerados algumas das maiores obras da literatura de todos os tempos.

O livro que eu li esta semana também pertence a essa categoria de clássicos enxutos. Ele se chama “A morte de Ivan Ilitch” e foi escrito por um dos mais importantes escritores da literatura russa, o Lev Tolstói.

 

 


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A Morte de Ivan Ilitch, editora 34
A Morte de Ivan Ilitch em HQ, editora Peirópolis


 

 

Trata-se de uma história de um homem comum, que viveu uma vida comum e teve uma morte comum.

Mas livro (você já adivinhou) não tem nada comum. Brilhantemente, o Tolstói consegue mostrar em apenas setenta páginas a mudança da compreensão de vida de um homem sem graça e egoísta – tudo a partir do momento em que ele se dá conta de que a morte se aproxima.

Todo mundo morre. Isso é uma coisa que eu sei, você sabe, todo mundo sabe desde muito cedo: a morte é o fim inevitável de tudo que um dia esteve vivo.

Mas, como a morte é um destino é tão natural quanto inapelável, pensar demais nela se torna insuportável para a maioria de nós.

Todos nós sabemos que vamos morrer. Mas passamos a vida quase inteira em negação, tentando esquecer que sabemos que vamos morrer.

E, no entanto, dizem que uma das obsessões do Tolstói – que foi um escritor de vida espiritual e filosófica muito desenvolvida – era a ideia da morte.

 

Retrato de Lev Tolstói.

Retrato de Lev Tolstói.

 

Ele achava que lembrar da morte constantemente nos fazia pessoas melhores, capazes de valorizar o que vida tem de realmente importante.

E não por acaso, a literatura dele é cheia de cenas de morte intensas e inesquecíveis, inclusive nas suas obras mais conhecidas, “Guerra e Paz” e “Anna Karênina”.

Em “A morte de Ivan Ilitch”, o Tolstói fala de um homem que teve uma existência medíocre, e que descobre à beira da morte, e da maneira mais terrível, o que realmente importa. Mas será tarde demais?

 

Retrospectiva: Os 5 Pais Mais Legais da Literatura

 

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Com a chegada do fim do ano, está na hora de começar a fazer algumas retrospectivas dos livros lidos nesse primeiro ano de Ler Antes de Morrer!

Como são quase cinquenta leituras concluídas, já está ficando fácil fazer algumas listas reunindo as histórias e os personagens. A lista de hoje, por exemplo, foi muito fácil de elaborar: os pais mais legais dos livros que eu já li até agora. Confira!

 

 

– Bob Cratchit, de “Um Conto de Natal” (Charles Dickens).

 

Cena do filme "Scrooge", de Ronald Neame (1970)

Cena do filme “Scrooge”, de Ronald Neame (1970)

 

Apesar de ser um personagem secundário, Bob Cratchit tem grande importância na história de Natal mais famosa de Charles Dickens. O funcionário aparece como o oposto do patrão Scrooge, o capitalista avarento que protagoniza a história. Apesar de pobre, Bob Cratchit é generoso, doce e cheio de atenção pelos cinco filhos; não poderia ser mais diferente do velho Scrooge, que abandonou a família para se dedicar exclusivamente ao dinheiro. Compre na Amazon.

 

– Jean Valjean, de “Os Miseráveis” (Victor Hugo).

 

Cena do filme "Os Miseráveis", de Tom Hooper (2012)

Cena do filme “Os Miseráveis”, de Tom Hooper (2012)

 

Apesar de não ser o pai biológico da menina Cosette, Jean Valjean é figura paterna mais doce e dedicada do clássico de Victor Hugo. Por ser filha da prostituta Fantine, uma das personagens mais exploradas da trama, Cosette tinha tudo para ter um futuro tão triste e abandonado como o da mãe. Mas o destino faz com que o caminho das duas cruze com o do ex-presidiário Jean Valjean, outro injustiçado, outra vítima das circunstâncias, que também busca desesperadamente uma redenção. Compre na Amazon.

 

– Sr. Bennet, de “Orgulho e Preconceito” (Jane Austen).

 

Cena do filme "Orgulho e Preconceito:, de Joe Wright (2005)

Cena do filme “Orgulho e Preconceito:, de Joe Wright (2005)

 

O sr. Bennet é um homem de sorte, e ao mesmo tempo, um homem azarado. É sortudo porque é pai de cinco filhas felizes e saudáveis, por quem ele sente muito carinho – especialmente, isso ele não faz nenhuma questão de esconder, pela filha Elizabeth. Mas ele também tem muito azar, porque sabe que nenhuma das cinco filhas poderá herdar a pequena propriedade da família, já que as leis da Inglaterra não permitem tais direitos às mulheres. É por isso que ele tem tanto interesse quanto elas de que as meninas façam casamentos com homens ricos.

O que eu mais gosto do sr. Bennet é que ele me lembra o meu próprio pai – tranquilo, carinhoso, inteligente mas, ao contrário do que seria de se esperar de um homem do século XIX, mais preocupado em ver as filhas felizes do que em conseguir um casamento vantajoso a qualquer custo. Compre na Amazon.

 

– Otto Frank, de “Diário de Anne Frank” (Anne Frank).

 

Otto e Anne Frank.

Otto e Anne Frank.

 

Otto Frank é o único “papai real” dessa lista. Foi o diário da sua filha, Anne Frank, que expôs ao mundo os terrores da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, além do sufocante cotidiano no esconderijo secreto onde a família tentou se refugiar durante dois anos no auge da Guerra.

Por ter sido o único sobrevivente da família, coube a Otto a difícil decisão de publicar o diário da menina Anne, anos após a guerra – um documento em que ela não apenas narrava o dia-a-dia no esconderijo, mas também expunha profundamente a intimidade da família e suas próprias angústias e inquietações. Graças a esse pai, de quem Anne faz um retrato extremamente carinhoso, hoje nós podemos ler um dos livros de não-ficção mais impressionantes de todos os tempos. Compre na Amazon.

 

– Atticus Finch, de “O Sol é Para Todos” (Harper Lee).

 

cenas do filme "O Sol é Para Todos" direção: Robert Mulligan (1962)

Cena do filme “O Sol é Para Todos”
direção: Robert Mulligan (1962).

 

Atticus Finch é o pai que todos gostaríamos de ter. Cuida dos filhos, a menina Scout e o garoto Jem, como nenhum outro adulto cuidava de suas crianças na pequena e provinciana cidade de Maycomb, nos anos 1930: com franqueza, honestidade, firmeza – e sem jamais se esquecer que, afinal de contas, eles são crianças.

Atticus é apresentado pela narradora “O Sol é Para Todos”, a menina Scout, como um verdadeiro herói – tanto no ambiente familiar como perante a sociedade. Compre na Amazon.

 

48º livro: coleção Luis Fernando Verissimo

 

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Depois de ler tantos contos perturbadores do Edgar Allan Poe na semana do Halloween, e depois de suavizar um pouco o clima dando risadas do Fantasma de Canterville de Oscar Wilde no feriado de Finados, nessa semana eu resolvi relaxar de vez.

Me propus a reler o máximo que eu conseguisse da minha coleção de crônicas do Luis Fernando Verissimo, o meu cronista favorito desde que aprendi na escola o que era uma “crônica” – um texto curto que sai nos jornais com tema livre, mas que geralmente fala das coisas do cotidiano.

 

 

E desde então, minha coleção do Verissimo ficou bem grande. Sem contar as edições que já não se encontram mais nas livrarias (“A grande mulher nua” e “A velhinha de Taubaté”) tenho na minha biblioteca onze títulos dessa coleção recente de capas coloridinhas da editora Objetiva. Veja os links abaixo da Amazon:

 

O Melhor das Comédias da Vida Privada
As Mentiras que os Homens Contam
A Mesa Voadora
Comédias Para se Ler na Escola
Mais Comédias Para se Ler na Escola
Orgias
O Mundo é Bárbaro
Comédias Brasileiras de Verão
Diálogos Impossíveis

 

 

Como está todo mundo cansado de saber, meu objetivo desde que comecei este distinto blog é resenhar 1001 livros. E que, por isso, eu mantenho uma contagem de cada novo livro lido, atingindo até o momento não muito impressionante marca de 47 livros lidos.

Considerando que já li todos esses livros do Luis Fernando Verissimo ao longo da vida (em alguns casos, mais de uma vez), eu poderia, numa tacada só, avançar a minha contagem em onze posições – já que são, não se pode negar, onze livros diferentes.

 

Luis Fernando Verissimo no início da carreira de cronista.

Luis Fernando Verissimo no início da carreira de cronista.

 

Mas, assim como você nesse exato momento, eu achei essa estratégia seria meio desleal.

Afinal, não consigo enxergar os livros de crônicas do Verissimo como obras independentes. Ao contrário dos romances e livro de poesias, que ele também publicou, os livros da minha coleção não foram pensados como unidades.

Eles são coletânias de crônicas publicadas em diferentes jornais do país. Crônicas divididas em temas – política, comida, festas, amor, etc. – mas mesmo assim parte de um mesmo grande trabalho construído ao longo de mais de quarenta anos de carreira.

 

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Se eu tivesse nascido nos anos cinquenta e tivesse assinado a vida inteira algum desses jornais, não teria conseguido identificar nas crônicas do Verissimo onze livros diferentes. Para mim, elas seriam como fotografias de uma única pessoa ao longo da vida – a aparência e o estado de espírito mudam muito, os problemas e os sentimentos também, mas, no fundo, seriam sempre fotos da mesma pessoa.

Por isso, resolvi considerar toda a minha coleção do Luis Fernando Verissimo como uma grande obra, uma grande leitura: a de número 48.

Alguns vão dizer que desse jeito eu nunca vou chegar ao número ridiculamente alto de 1001 livros lidos. Mas não faz mal.

Acho até que eu vou me sentir meio mal se um dia eu conseguir alcançar os 1001 livros. O divertido é correr atrás da meta, e não alcançá-la. Se um dia eu chegar lá, provavelmente eu vou olhar para trás e me desafiar a ler tudo aquilo de novo. Em chinês, ou qualquer coisa assim.