29º livro: As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain

 

Essa semana eu resolvi ler um livro clássico da literatura norte-americana: “As Aventuras de Huckleberry Finn”.

E essa decisão não foi à toa: eu me inspirei nas notícias sobre racismo que chegam dos Estados Unidos nos últimos dias.

 

 

É que na semana passada, um jovem branco de apenas 21 anos matou 9 pessoas dentro de uma igreja frequentada pela comunidade negra na Carolina do Sul.

E nessa semana, o presidente Barack Obama, ele próprio filho de africano, usou uma expressão considerada considerada muito ofensiva pra se referir aos negros durante uma entrevista.

Claro que ele não usou como forma de xingamento, ele só fez menção ao fato de que essa palavra é tabu. E é mesmo: tanto que a entrevista causou o maior escândalo.

 

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Mark Twain.

 

(Aliás, se você tá curioso pra saber que palavra é essa, procure no Google, porque eu é que não quero correr o risco de ofender ninguém!)

E o que tudo isso tem a ver com As Aventuras de Huckeberry Finn? É que este livro também ficou muito famoso por abordar o tema do racismo. Mas com uma curiosidade: até hoje os estudiosos ainda não chegaram a um consenso se ele a favor do racismo ou contrário a ele.

O livro conta a história de um menino branco que faz amizade com um escravo negro e fujão. Eles vivem várias aventuras e, enquanto quase todos os personagens brancos são desonestos, interesseiros ou vingativos, o personagem do escravo é o mais fiel, mais confiável e mais gentil de todos.

 

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Para alguns, o grande escritor Mark Twain, autor de As Aventuras de Huckleberry Finn, estava querendo criticar o racismo histórico dos norte-americano e mostrar que a amizade entre brancos e negros é não apenas possível, como também desejável.

Mas outros acham que o livro é extremamente racista, porque, entre outras coisas, ele usa aqueeeela palavra proibida mais de DUZENTAS vezes.

Talvez só exista um jeito de saber o livro é ou não é racista afinal das contas: lendo. E na minha opinião, ele não é racista, não. E na sua?

28º livro: Incidente em Antares, Erico Verissimo

 

“NUM PAÍS TOTALITÁRIO ESTE LIVRO SERIA PROIBIDO”.

Imagine uma faixa vermelha com essa frase estampando a capa de um livro.

Imagine agora que o livro em questão foi publicado em 1971, durante o governo do general Médici, que ficou conhecido como o auge, os “Anos de Chumbo” da ditadura militar brasileira.

 

 

Pode ser que o governo tenha caído na provocação da editora, pode ser que a censura tenha feito vista grossa, pode até ser que eles não tenham entendido nada.

Mas o fato é que o livro “Incidente em Antares”, o mais político e mais satírico do escritor gaúcho Erico Verissimo, miraculosamente driblou a censura e foi um sucesso de vendas naquele ano de 71.

O livro pertence ao que se costuma chamar de literatura fantástica, porque o evento central da história é um incidente completamente sobrenatural.

 

Erico Verissimo

Erico Verissimo


 

Na pequena e pacata cidade de Antares, no interior do Rio Grande do Sul, os trabalhadores estão em greve e os coveiros do cemitério municipal se recusam a enterrar 7 cidadãos que faleceram naquele dia.

Indignados, os sete defuntos se levantam dos seus caixões e, mesmo quando começam a apodrecer a olhos vistos, cheirando mal e tudo, eles voltam pra cidade pra reivindicar o direito de serem enterrados com dignidade.

 

Elenco da minissérie "Incidente em Antares", de 1994 (Rede Globo).

Elenco da minissérie “Incidente em Antares”, de 1994 (Rede Globo).

 

E aí começa uma lavação de roupa suja entre os vivos e os mortos. E tanta coisa podre é revelada na vida pública e privada dos cidadãos de Antares, que o apodrecimento dos mortos não chega nem aos pés tanta sujeira.

Nessa grande obra da literatura brasileira, Erico Verissimo fala da hipocrisia, da violência e do autoritarismo que sempre estiveram presentes na história do nosso país.

Uma obra que furou a barreira da censura e que ainda ainda hoje, mais de 40 anos depois, continua atual e necessária para todos o brasileiros.

Por que só lemos livros gringos?

 

Dos 20 livros mais vendidos no Brasil, 19 são de autores estrangeiros – e o único autor brasileiro, P. J. Pereira, mora nos Estados Unidos há uns dez anos.

Nos últimos 5 anos, o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos no ano na categoria ficção foi sempre ocupado por títulos estrangeiros. As informações são do portal Publish News.

Por que só estamos lendo livros gringos? Será que a nossa longa tradição de escritores (que conta com nomes como Erico Verissimo, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e muitos outros) se esgotou?

No vídeo de hoje, eu tento entender por que os brasileiros só estão se interessando por literatura que vem de fora. E também dou 5 bons motivos para dar uma segunda chance para a literatura brasileira!

 

 

Livro nº 27: Orgulho e Preconceito, Jane Austen

 

Chega o dia dos namorados e o mundo parece se divide em duas metades: a metade dos que estão namorando e metade dos que não estão e preferiam passar o dia embaixo da cama pra não precisar ver as declarações de amor melosas da primeira metade, que insistem em pipocar no seu Facebook, no seu Whatsapp, na televisão, no rádio, e socorro!, sabe-se lá por onde mais…

Eu pelo menos posso me orgulhar que fugi dessas duas metades: estou passando o dia dos namorados na companhia mais romântica e amorosa que se pode imaginar, na companhia do livro “Orgulho e Preconceito”, da escritora inglesa Jane Austen.

 

 

E olha, as declaraçõezinhas de amor do meu Facebook precisam comer muito arroz com feijão pra chegar aos pés do romantismo vivido entre a Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy, o casal de namorados mais teimoso, mais arrogante, mais inteligente e mais encantador da literatura. Pelo menos, na minha opinião.

Mas dizem que a autora, a Jane Austen, teve muito azar no amor. Uma vez, ela apaixonou perdidamente mas teve o desgosto de ser trocada por outra mulher, muito menos apaixonada, mas que tinha mais dinheiro e posição social do que ela.

 

Jane Austen.

Jane Austen.

 

Mas como dizem, azar no amor, sorte como escritor (hã, é, acho que a frase não era bem assim).

Jane Austen conquistou o mundo inteiro escrevendo romances inteligentes e açucarados que, ao contrário da história dela mesma, sempre têm final feliz.

É acontece em “Orgulho e Preconceito”, e também em “Razão e Sensibilidade”, “Emma”, “Persuasão”, livros que eu já tive a oportunidade de ler a assistir (a BBC de Londres já transformou todos eles em filmes e minisséries). Ae a Jane Austen não tivesse morrido tão jovem, aos 41 anos, imagine só mais quantos outros livros encantadores ela não teria nos deixado…

 

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Mesmo tendo sido escritos há mais de dois séculos, as obras de Jane Austen continuam sendo lidas paixão por adultos e adolescentes, homens e mulheres, casados e solteiros – gente que, como a Jane Austen, acreditam na fantasia do amor verdadeiro e incondicional.

26º livro: Capitães da Areia, Jorge Amado

 

Qual o tamanho da obra de Jorge Amado? Segundo a fundação que protege o legado do mais baiano dos escritores, foram no total 32 livros, publicados em mais de 60 países e lidos ainda por milhões de pessoas em todo o mundo.

Mas tem quem diga que toda essa produção na verdade pode ser vista como uma única obra, com um único personagem: o povo brasileiro.

 

 

Vida longa a Jorge Amado! E pra falar a verdade, ele bem que viveu muito, mesmo – de 1912 até 2001, praticamente todo o século XX.

Tempo suficiente para pintar o retrato mais colorido, mais barulhento, cheiroso e sensual da sociedade brasileira. E tempo suficiente para denunciar os principais problemas do Brasil, não só proo resto do mundo, mas principalmente pros próprios brasileiros.

É assim que acontece também em “Capitães da Areia”, livro publicado em 1937 e que até hoje é o mais popular do escritor, com mais de 4 milhões de cópias vendidas.

 

Jorge Amado.

Jorge Amado.

 

E como sempre, os protagonistas desse romance eram os excluídos da sociedade. Nesse caso, os meninos de rua, órfãos ou abandonados pela família, que pra sobreviver só tinham 2 coisas: a companhia de um ao outro e a criminalidade.

Do mesmo jeito que hoje em dia os jornais estão cheios de notícias de menores que furtam, assaltam e até esfaqueiam ciclistas na lagoa, da mesma maneira os jornais da Bahia de 1930 também procuravam uma solução para o problema dos menores infratores.

Cadeia? Igreja? Reformatório? Bom, seja lá qual foi a solução que eles propuseram, não funcionou: o problema continua existindo até hoje.

 

 

Por isso, Capitães da Areia permanece sendo um livro atual e necessário. E leitura obrigatória pra quem vai prestar o vestibular da Fuvest no final do ano.

E isso porque ele lança um novo olhar a um dos principais problemas do Brasil, a infância abandonada. Abandonada pela família, abandonada pelos políticos e, acima de tudo, abandonada pela sociedade.

25º livro: A Sangue Frio, Truman Capote

 

Acontece toda hora: o estudante passa no Vestibular na faculdade de jornalismo, e quando chega lá se dá conta de que nunca leu um jornal inteiro na vida.

E não é porque ele não gosta de ler não, hein? Todo estudante de Jornalismo gosta ler, lê pra caramba, até sonha em escrever os próprios livros um dia.

Mas o que ele gosta mesmo de ler são livros com histórias de ficção, daqueles que transportam a gente para universos paralelos cheios de mistério, aventura e romance.

 

 

E aquele tal jornalismo, as notícias que falam do “QUE, QUANDO, ONDE, COMO e POR QUE” alguma coisa aconteceu, isso ele vai ter quatro anos pra aprender a gostar. E acaba aprendendo, ainda bem.

Mas não sem antes descobrir que houve jornalistas, habitantes do “Monte Olimpo” da imprensa, junto a outros deuses sagrados e intocáveis, que conseguiram misturar notícia com literatura.

O americano Truman Capote foi um deles. Nos anos 1960, ele publicou um livro que virou ao mesmo tempo clássico tanto da literatura, como do jornalismo mundial – A Sangue Frio.

É que um dia o Truman Capote estava lendo o New York Times e bateu o olho numa notinha de dois parágrafos que contava uma notícia triste, que vinha interiorzão dos Estados Unidos, numa cidade de menos de trezentos habitantes: uma família inteira tinha sido assassinada.

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Casa da família Clutter, no Kansas (EUA), onde aconteceu o massacre investigado por Capote em “A Sangue Frio”.

 

Mas essa notinha que a maioria dos leitores nem prestou atenção foi pro Capote o ponto de partida pra uma das reportagens mais bem feitas de todos os tempos.

Truman Capote viajou pra cidadezinha e durante nada menos que SEIS anos (uma eternidade, para os padrões jornalísticos de hoje) entrevistou todos os habitantes, os amigos e parentes da família, e principalmente – os assassinos, que logo foram descobertos.

O resultado foi um livro-reportagem que conta em ritmo de novela policial todos os acontecimentos que levaram àquele crime brutal. Com direito, inclusive, a um mergulho no universo psicológico dos dois criminosos.

Mas com uma grande diferença das histórias do Sherlock Holmes e da Agatha Christie: tudo que ele contava ali tinha acontecido de verdade.

 

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Truman Capote.

 

Truman Capote é hoje considerado um dos maiores jornalistas de todos os tempos porque ele percebeu que, ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, a “vida real” pode ser tão misteriosa e fascinante como qualquer livro de ficção.

E não por acaso, ele virou ídolo de quase todos os aspirantes a jornalista que um dia se sentam nos bancos da universidade.