Começos Inesquecíveis (Tag)

Fui marcada pela Mell Ferraz, do blog Literature-se, a responder à tag “Começos Inesquecíveis”, contando quais são as minhas aberturas de livros preferidas.

E olha, vou confessar que foi difícil escolher… mas depois de quebrar a cabeça por algum tempo, consegui separar 6 obras que me deixaram embasbacada a partir da primeira página.

Aqui embaixo no vídeo, coloquei as frases de abertura nas línguas originais dos livros. Então vamos lá!

 

 

1) A Metamorfose, de Franz Kafka

Já falei sobre este livro aqui no blog mais de uma vez. Depois de anos traumatizada pelo labirinto insensato que é “O Processo”, finalmente fiz minhas pazes com Kafka depois de ler “A Metamorfose”. Um livro brilhante do início ao fim – mas principalmente no início, uma das melhores frases de abertura da história da literatura.

 

Metamorfose_Fotor

2) O Processo, Franz Kafka

E por mais que este livro do Kafka, como eu mencionei lá em cima, tenha sido traumatizante pra mim, a frase de abertura dele também é instigante e dá vontade de ler o resto do livro. Aliás, eu ando falando tão mal de “O processo” que talvez já esteja na hora de reler esse livrinho e ver se finalmente eu faço as pazes com ele…

 

Processo_Fotor

 

3) Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

Eu abandonei duas vezes a leitura de “Cem Anos de Solidão” antes de finalmente conseguir ler até o final, no ano passado. Um livro maravilhoso, mas que talvez seja preciso ter um pouco de maturidade para aproveitar completamente.

E a razão que sempre me fazia tentar de novo, mesmo quando eu já tinha abandonado a leitura antes, era justamente a frase de abertura – que mexe com a imaginação, sai do senso comum e faz sonhar…

 

Cem Anos_Fotor

 

4) O Nome da Rosa, Umberto Eco

A primeira coisa que eu fiz, no primeiro dia do meu intercâmbio na Itália em 2010, foi procurar uma livraria perto da minha nova escola e comprar “Il Nome della Rosa”, ou “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. Sempre tinha ouvido falar maravilhas desse livro, e sonhava em conseguir ler na língua original, italiano.

É claro que não consegui, não na primeira tentativa… foi só depois de voltar ao Brasil, e de ter conseguido ler outros livros mais fáceis em italiano – comecei de um bem simples, “Crepúsculo”, evoluí para “Pilares da Terra” e depois livros de suspense e terror de um autor chamado Niccolò Ammaniti – que finalmente consegui ler “Il Nome della Rosa”. Que livro!

E a frase de abertura até hoje me faz arrepiar, porque nos transporta para dentro do ambiente sombrio e austero de uma abadia medieval…

 

Nome da Rosa_Fotor

 

5) Fim, Fernanda Torres

E pra descontrair, não podia deixar de mencionar uma comédia também, né? Se bem que “Fim”, o ótimo romance de estreia da atriz Fernanda Torres, está mais para uma tragicomédia.

Dividida entre cinco histórias sobre o fim da vida de cinco amigos cariocas, “Fim” alcança aquele delicado equilíbrio entre o humor e o drama. A começar pela abertura que me despertou gargalhadas, o livro alterna momentos divertidos, desconcertantes, revoltantes, e acima de tudo, momentos em que parece que os personagens principais são pessoas que a gente conhece. Que a gente conhece até demais.

 

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6) O Hobbit, J.R.R.Tolkien

E pra fechar, eu separei a frase de abertura do livro que eu estava lendo no momento em que gravei a tag: “O Hobbit”, o livro que deu origem ao mega sucesso de fantasia “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien.

Eu nem sabia muita coisa sobre “O Hobbit” na ocasião em que gravei o vídeo, ainda estava no comecinho da leitura. Mas achei a abertura doce, meiga, autêntica… Só depois descobri que, para os fãs do universo Tolkien, esta frase de abertura é o pontapé inicial mais perfeito que ele poderia ter criado para a sua grande obra.

E você o que acha?

 

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Livro nº 22: Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

 

Você se lembra quando a gente falou da Metamorfose do Kafka? Lembra que ela tinha uma proposta absurda – um homem que um dia acorda transformado num inseto – e que partir daí o autor conta de maneira realista quais eram as consequências dessa tragédia para a família dele, lembra?

 

Cegueira

 

Eu acho que a gente pode dizer que o José Saramago segue mais ou menos o mesmo roteiro.

O acontecimento fantástico e inexplicável que ele propõe é o seguinte: subitamente, todas as pessoas começam a ficar cegas. Como se isso já não fosse desesperador, essa cegueira ainda é diferente, branca e não negra. Uma doença (ou maldição?) nova, que a ciência não consegue diagnosticar, muito menos curar.

E a partir desse acontecimento, já na primeira página, o “Ensaio sobre a cegueira” descreve de maneira extremamente realista no que o mundo se transforma diante dessa tragédia. E eu só encontro uma palavra para resumir no que ele se transforma: numa selva.

 

 

Em pouco mais de trezentas páginas, o “Ensaio sobre a cegueira” desmonta toda a organização social complexa que a humanidade demorou tanto tempo pra conquistar, o Estado de direito. Governos, instituições, relações familiares, garantias civis – tudo isso simplesmente desmorona conforme os seres humanos vão perdendo a visão.

É como se os seres humanos voltassem para o estado primitivo.

A primeira medida do governo, quando a epidemia começa a atingir algumas pessoas, é metê-las em quarentena dentro de um sanatório desativado. Lá não há funcionários de saúde, não há agentes do governo, a comida é deixada na porta por agentes do exército com roupas de proteção. Todas as medidas são tomadas para que aqueles cegos não contaminem mais ninguém.

Evidentemente, essa medida não resolve nada. Rapidamente a epidemia evolui fora da quarentena, até que não sobre mais ninguém com visão. Exceto uma única pessoa, uma mulher comum que inexplicavelmente continua a enxergar…

 

Julianne Moore, Mark Ruffallo, Alice Braga em gravação de "Ensaio sobre a cegueira" no centro de São Paulo.

Julianne Moore, Mark Ruffallo, Alice Braga em gravação de “Ensaio sobre a cegueira” no centro de São Paulo.

 

E ela é a única que pode ver como as ruas vão sendo tomadas por milhares de pessoas cegas e perdidas, porque no momento em que ficam cegas, não conseguem mais achar o caminho de casa.

Ela assiste, angustiada, aos supermercados sendo saqueados por multidões famintas, porque logo a comida deixa de ser produzida nos campos (onde os trabalhadores rurais também ficaram cegos).

Ela vê como, em pouco tempo, as ruas se enchem lixo, excrementos, gente morta e outras imundícies – porque não há mais ninguém pra limpar.

“Ensaio sobre a cegueira” foi publicado em 1995 e é uma das obras mais lidas do José Saramago no Brasil, tão popular que ela até virou um filme com elenco internacional dirigido por Fernando Meirelles e gravado, em muitas cenas, em São Paulo.

 

José Saramago (1922 - 2010)

José Saramago (1922 – 2010)

 

Apenas três anos depois, em 1998, Saramago se tornou prêmio Nobel de Literatura – até hoje o único escritor da língua portuguesa que recebeu a condecoração – e passou a ser festejado no mundo inteiro por seu estilo irônico e amargo, tão presente no “Ensaio sobre a cegueira”.

José Saramago foi um escritor alcançou a fama muito tarde, com quase sessenta anos. E foi realmente na terceira idade que ele mais produziu, uma obra vasta em que ele simplesmente inventou uma forma de narrar totalmente nova: outras regras de pontuação, narrador irônico, questionador, desconcertante.

Saramago contava, inclusive, que teve a inspiração de “Ensaio sobre a cegueira” por acaso, num restaurante, quando ele se perguntou: e se nós fôssemos todos cegos? Ao que ele respondeu imediatamente: mas nós JÁ SOMOS todos cegos.

É exatamente esta revelação terrível que ele quer provar: com ou sem a visão, vendo tudo branco ou vendo todas as cores, pouco importa – a verdadeira cegueira da humanidade é a incapacidade de enxergar as coisas que estão embaixo do nosso nariz.

É aceitar explicações fáceis e baratas sobre o mundo, que na verdade é muito complexo. A cegueira do Saramago é uma síntese do egoísmo, da intolerância, do fanatismo, do comodismo, da competição selvagem e da indiferença tão comuns na sociedade moderna.

“Ensaio sobre a cegueira” é um soco no nosso estômago. É a maneira mais forte e radical que existe de entender aquele ditado que diz que “pior cego é aquele que não quer ver”.

Bookshelf Tour – Parte 5

Neste 5º episódio da série Bookshelf Tour, conheça meus livros pockets! Pequenas edições para livros grandiosos, como Dom Quixote, Madame Bovary, As Ligações Perigosas, Memórias Póstumas de Brás Cubas e muitos outros…

Eu sou muito fã de pockets. Adoro poder pagar pouco e levar livros leves por aí. Por isso, obrigada, L&PM! Obrigada, Cia de Bolso! E vocês também, Ateliê Editorial e Best Bolso! Obrigada, editoras lindas que pensam na saúde das nossas carteiras e dos nossos pobres ombros que carregam bolsas cheias de livros no metrô.

 

 

E se você gosta de livros tanto quanto eu e ficou curioso para ver as outras partes do meu Bookshelf Tour, é só clicar nos links abaixo!

Parte 1

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