Livro nº 21: Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski

Chegamos à leitura 21, número que durante muitos anos representou a maioridade civil no Brasil, e continua representando em muitos países. Nada mais justo, portanto, que eu tenha escolhido para esta ocasião um livro marcou a minha maioridade como leitora: “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski (Rússia, 1866).

 

Crime e Castigo

 

Desde adolescente, quando comecei a ler livros “de gente grande”, olhava a literatura russa com respeito e medo. Custei muito tempo para me aventurar nessa área.

Eu tinha 20 anos quando, entusiasmada com uma aula Filosofia no primeiro ano da faculdade de jornalismo, fiz a minha primeira tentativa de ler “Crime e Castigo”. Mas fracassei. Lembro de ter abandonado a leitura logo nos primeiros capítulos, me sentindo frustrada ter achado o texto confuso e sonolento.

Quatro anos podem não parecer muita coisa, mas quando nesses quatro anos a gente termina uma faculdade (no meu caso, duas), parece que este tempo é uma eternidade. As vivências pessoais e a bagagem cultural, antes tão pobres no tempo do colégio, se multiplicam. Viramos pessoas diferentes.

Aos 24, logo depois de me formar e nos primeiros meses do meu primeiro emprego com carteira assinada, resolvi tentar mais uma vez ler “Crime e Castigo”. Dessa vez, consegui. E também mantive, na ocasião, um diário de leitura que publiquei na versão antiga do Ler Antes de Morrer.

Embora hoje em dia eu já lido este livro uma segunda vez, foi este diário antigo, este ritual de passagem da minha maturidade literária, que eu escolhi para compartilhar com vocês.

 

 

Ep. 1: Pelas vielas sombrias de “Crime e Castigo”

Em pouco mais de uma semana de leitura, estou apenas na metade de “Crime e Castigo”.

Como qualquer obra escrita há mais de cem anos, e ainda num país tão distante como a Rússia, estou achando um pouco mais difícil de ler. Eu mesma falei no último post que já tinha tentado começar uma vez, para largar logo nas primeiras páginas…

Mas dessa vez, a leitura está fluindo! Descobri que, apesar da linguagem um pouco complicada (não digo difícil, apenas diferente do que estamos acostumados), “Crime e Castigo” é uma novela empolgante, cheia de personagens fascinantes, idas e vindas e tramas paralelas.

Tudo, evidentemente, gira em torno do protagonista Rodion Raskólnikov e do tal crime que ele comete e pelo qual é penalizado, como indica o próprio título.

Raskólnikov é um rapaz como todos nós conhecemos ou já ouvimos falar. Vinte e poucos anos, inteligente e superprotegido pela mãe viúva e irmã devotada, muda-se para a Capital para estudar e ser alguém. Carrega nas costas toda a responsabilidade de subir na vida e tirar a família da pobreza.

No começo, as coisas parecem que vão bem. Ele mergulha nos estudos com afinco e ainda dá umas aulas particulares para ganhar um dinheiro extra.

Raskólnikov, ilustração de André Silva (especial para o Ler Antes de Morrer)

Raskólnikov, ilustração de André Silva (especial para o Ler Antes de Morrer)

Mas não demora para que as dificuldades da vida de estudante derrubem o entusiasmo de Raskolnikóv. A São Petersburgo descrita por Dostoiévski é uma cidade sombria, repleta de vielas e tabernas pestilentas onde perambulam bêbados, adolescentes prostituídas e trabalhadores extenuados. Rapidamente o frágil e introspectivo Raskólnikov é submerso por este ambiente de miséria e pessimismo, e não encontra forças para emergir.

Larga os estudos, as aulas particulares. Os poucos objetos de valor que ainda possui, se vê obrigado a penhorar com uma velha repugnante, que empresta dinheiro tomando objetos pessoais como garantia. E é nesse ponto da história que começa o livro.

Raskólnikov, já tão empobrecido que anda por aí com aparência de mendigo, está dominado por espécie de transe. A leitura me deu um pouco daquela sensação entre o sono e a vigília, quando não temos certeza se as coisas que estão acontecendo são verdadeiras ou imaginadas. Raskólnikov está preso nessa condição.

É quando descobrimos que ele está atormentado por uma ideia fixa: assassinar a velha agiota, que tanto mal faz às pessoas necessitadas como ele, e usar o dinheiro que ela guarda em casa para alguma finalidade mais nobre…

Marmieládov, ilustração de André Silva.

Marmieládov, ilustração de André Silva.

É bom que fique bem claro, Raskólnikov não é nenhum psicopata, nem um desses esquizofrênicos que matam porque ouvem ordens imaginadas. Pelo menos não estou tendo esta impressão.

Pela minha leitura até agora, tudo parece muito mais complexo do que isso. Raskólnikov é um assassino, é verdade, mas é também uma pessoa comum, com fraquezas e virtudes, que compreende as leis e procura segui-las, na medida do possível. E o mais perturbador é perceber o quanto às vezes ele se parece com nós mesmos…

 

Ep. 2: Gente extraordinária em “Crime e Castigo”

Livro bom é livro que vai se revelando aos poucos.

Acabo de chegar num ponto de “Crime e Castigo” em que há informações importantes sobre a personalidade do protagonista, Raskólnikov, e a maneira que ele vê o mundo.

Acontece que até agora eu tinha a impressão de que ele era um jovem frágil, impressionável e um tanto arrogante, mas mesmo assim uma pessoa que sabia da importância de obedecer as leis para viver em sociedade. O crime que ele cometeu foi fruto das circunstâncias, ele estava só, sem dinheiro, sem perspectivas, rodeado de miséria…

Sônia Marmieládova, ilustração de André Silva

Sônia Marmieládova, ilustração de André Silva

Enfim. Antes do livro começar, Raskólnikov publicou um texto (e essa é a informação que descobrimos), defendendo resumidamente que existem dois tipos de pessoas: as ordinárias e as extraordinárias.

Pessoas ordinárias são a maioria das pessoas, que nascem-vivem-e-morrem sem provocar nenhum impacto na sociedade, ou sem realizar nenhum feito que mereça ser lembrado. A essa massa, as leis existem e devem ser seguidas à risca.

Já as pessoas extraordinárias… bom, essas só aparecem de vez em quando. São pessoas tipo Napoleão ou Júlio César, que morrem e o mundo continua reverenciando seus legados. A humanidade é uma antes deles e outra depois.

Desses indivíduos tão únicos e especiais, como se pode esperar que sigam todas as regras e respeitem todas as proibições? Ora, elas só chegaram aonde chegaram porque infringiram tabus, venceram guerras, destruíram inimigos…

Na teoria de Raskólnikov, uma pessoa extraordinária é diferenciada dos demais. Por isso, pode ter a consciência tranquila caso precise “eliminar alguns obstáculos” para atingir um fim mais nobre. Os fins justificam os meios, quando se é uma pessoa extraordinária.

Aliena Ivanovna, ilustração de André Silva

Aliena Ivanovna, ilustração de André Silva

A fragilidade desse raciocínio é tão evidente quanto perigosa. Como se faz para diferenciar as pessoas ordinárias das extraordinárias? E, a pergunta mais importante: o que aconteceria se todo mundo achasse que tem direito de passar por cima dos obstáculos que a vida impõe? Até onde eu sei, todas as pessoas se julgam únicas, especiais e extraordinárias…

Pois é. Aparentemente, Raskólnikov se apoiou nessa teoria para justificar seu crime. E agora, está tentando se ancorar nela para acalmar a própria consciência, o coração que dispara a todo o tempo, os pesadelos… mas sem muito sucesso.

E seguindo a leitura!

 

Ep. 3: Um adeus temporário

Por fim terminei de ler Crime e Castigo. Uma pequena conquista pessoal, já que, como contei aqui, eu tinha tentado começar outras vezes e não tinha conseguido.

Mas sou uma firme defensora de que não existe livros difíceis, existem livros que a gente ainda não tem maturidade para ler.

Sempre que você começar um livro e achar chato e incompreensível, você tem dois caminhos. Pode insistir bravamente, dizendo que “não larga as coisas pela metade”, e terminar sob o risco de achar depois que a leitura foi insuportável; ou pode deixar para lá.

Mas nos dois casos, é preciso humildade. Não é porque engoliu até o fim (nariz tampado para não sentir o gosto amargo), que você leu de verdade o “livro difícil”. Às vezes ele nem relou direito em você, deu só uns cutucões que você nem sentiu. Li alguns livros do tempo da escola desse jeito.

Mas também é preciso ser humilde para interromper a leitura, guardar o livro na estante e dizer carinhosamente para ele: qualquer dia desses a gente se revê. Ainda não estou pronto pra você, mas fica paradinho aí na prateleira, não se mexe, que eu vou voltar. Reli vários livros do tempo da escola desse jeito.

E com “Crime e Castigo” também foi assim. O que no começo parecia tão difícil logo se revelou uma história fascinante, inteligente, com ritmo de novela policial.

Ainda vou voltar a escrever outras vezes sobre este romance, porque esta é uma daquelas obras que a gente relê ao longo da vida, cada vez extraindo um novo significado. Não vai ser dessa vez que “Crime e Castigo” vai ficar esquecido na estante, para nunca mais voltar a ser aberto…

Livro nº 20: O Cortiço, Aluísio Azevedo

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“O cortiço” é um clássico do Naturalismo brasileiro – considerado nosso primeiro romance social.

 

“E, naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e a multiplicar-se como larvas no esterco.

 

Não sou nenhuma especialista em literatura, muito menos professora de cursinho.

Mas acho que se tem um trecho bom para entender o espírito de O “Cortiço”, obra-prima de Aluísio de Azevedo, é este reproduzido acima.

Lembro bem dessas aulas no colégio. Os moradores do cortiço de Azevedo, um tipo de habitação popular muito comum no século XIX, são “uma coisa viva”, que parece “brotar espontânea”, “minhocar”, “esfervilhar” e por fim “multiplicar-se como larvas no esterco”. É muito forte essa imagem, minha gente.

 

 

Até parece que o escritor é um cientista de avental e luvas brancas, que está observando uma colônia de bactérias dentro tubo de ensaio. Se ele adiciona um pouco de açúcar, as bactérias se proliferam mais ainda. Se acrescenta vinagre, percebe que metade delas são dizimadas. Então, ele vai anotando tudo metodicamente na sua prancheta, repetindo as experiências até descobrir uma lei universal da natureza.

Pois os escritores como Aluísio de Azevedo, os naturalistas, se sentiam assim mesmo: cientistas.

Para eles, os seres humanos eram exatamente como fungos e larvas cultivados em laboratório: um produto biológico, cujo comportamento é determinado pelas condições externas. Se você um pedaço de carne fora da geladeira, em poucos dias ela atrai larvas, que começam a se reproduzir rapidamente. Se você coloca o homem num ambiente social precário, como um cortiço ou uma favela, ele também terá reações instintivas e incontroláveis.

 

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Retrato de Aluísio Azevedo (1857 – 1913)

 

Nas obras do naturalismo, o comportamento humano é determinado pela pressão do ambiente social, familiar, e até pelas características físicas da pessoa. É como se não houvesse espaço nenhum para o livre-arbítrio, a vontade. Em “O Cortiço”, Aluísio de Azevedo traduz o comportamento explosivo e promíscuo dos moradores como se eles fossem animais criados em jaulas de um circo malcheiroso, ou plantas cultivadas numa estufa abandonada.

 

“O rumor crescia, condensando-se; o zumzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço… Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.”

 

Esse tipo de pensamento, hoje em dia, parece preconceituoso e até absurdo, mas no final do século XIX, era o que havia de mais moderno entre cientistas sociais. As ciências exatas e naturais avançavam rapidamente, então os estudiosos de outras áreas – incluindo História, Direito, Filosofia e Letras – queriam incorporar em suas matérias métodos científicos, que passaram a ser a única forma confiável de obtenção de conhecimento.

Na Europa e nas Américas, os intelectuais passaram a ter um confiança quase cega na Ciência. Demoraria muitas décadas para que a humanidade se decepcionasse com o avanço científico – isso aconteceria mais precisamente em 1945, quando o mundo assistiu, estarrecido, o poder destruidor da bomba atômica. Mas até lá, acreditava-se que a ciência levaria à evolução da raça humana.

 

Émile Zola, um dos principais nomes da escola Naturalista no séc XIX.

Émile Zola, um dos principais nomes da escola Naturalista no séc XIX.

 

Entre os escritores, não foi diferente. O francês Émile Zola, um dos maiores nomes da literatura Naturalista, descreveu o seu método de trabalho exatamente como de um cientista:

 

“O observador apresenta os fatos tais como o observa, assenta o ponto de partida e estabelece o terreno sólido sobre o qual vão mover-se os personagens e desenvolver-se os fenômenos. Então, aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz com que as personagens se movimentem numa história particular para nela mostrar que a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos que se põem em estudo.”

 

E foi usando estes métodos que Aluísio Azevedo procurou explicar a miséria, a marginalidade e até o comportamento criminoso no Rio de Janeiro, que começava a crescer vigorosamente no final do século XIX. É por isso que costuma-se dizer que “O Cortiço”, livro publicado em 1890, é o primeiro romance social da literatura brasileira.

Como um autêntico cientista social, Azevedo chegou a alugar um quarto num cortiço, para “estudar os mecanismos desta sociedade a fim de fazer vir à tona as leis que a regem”. E o resultado todos já conhecem: uma denúncia impiedosa das péssimas condições de vida nos cortiços, habitações precárias que muitos historiadores consideram os precursores das favelas cariocas.

Livro nº 19: A Metamorfose, Franz Kafka

Vocês estão lembrados da última resenha, Alice no País das Maravilhas? Um livro realmente adorável. E também famoso no mundo inteiro por conseguir combinar lógica e absurdo ao universo infantil, transportando o leitor para dentro de um sonho.

Agora, nessa leitura número 19, eu também escolhi um livro que mistura realidade com absurdo. A diferença é que, nele, a gente se sente dentro de um pesadelo.

 

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Eu já tinha “A Metamorfose” na minha estante há muitos anos, não sei bem ganhado de que parente. Mas nunca me animava a ler, por mais que conhecesse a fama dessa pequena obra do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924).

A verdade é que tinha um certo medo desse autor. Tive uma experiência muito ruim com “O Processo”, outro livro famoso de Kafka, não uma, mas duas vezes durante minha vida acadêmica. E as duas leituras foram traumáticas: não compreendia a história, me sentia angustiada, perdida. Os personagens se comportavam de maneira bizarra e incompreensível. Foi um horror, demorei semanas para concluir a leitura, nas duas ocasiões.

Depois me ensinaram que essa sensação de desconforto era provavelmente intencional. “O Processo” conta a história de um homem que se vê sendo acusado, processado e até condenado, sem jamais descobrir qual era a acusação que pesava contra ele. Ou seja, os sentimentos desagradáveis que nós, leitores, sentimos quando lemos o livro não são nada se comparados aos sentimentos vividos pelo protagonista.

Mas saber tudo isso não mudou a minha má impressão da literatura de Franz Kafka. Meti na cabeça que ele só escrevia livros difíceis de ler. E “A Metamorfose” ficou anos esquecida na minha estante.

 

 

Mas a gente perde a fé num livro e ele não perde a fé na gente.

Quando eu finalmente tomei coragem para enfrentar o Kafka de novo, eu me surpreendi muitas vezes. Em primeiro lugar, porque eu terminei a leitura em um único dia – o que nunca costuma acontecer comigo; sou uma leitora voraz, porém lenta.

Também me surpreendeu o fato do livro ter linguagem fácil e clara, totalmente diferente do “Processo”. E a surpresa final: descobrir que “A Metamorfose” traz a mesma sensação labiríntica e vertiginosa, mas, dessa vez, me sentir próxima e solidária ao protagonista. Como se eu própria já tivesse passado pelo que ele passou muitas vezes…

 

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Retrato de Franz Kafka.

 

Para quem não conhece a história, vamos a uma rápida sinopse: Gregor Samsa é um jovem responsável e trabalhador. Um belo dia, ele acorda com uma sensação esquisita. Estava inexplicavelmente transformado num inseto monstruoso.

Tentei resumir a trama na maneira mais simples e direta possível. E mesmo assim, precisei escrever três frases. Imagine você agora que Franz Kafka conseguiu resumir esta situação grotesca e absurda numa única e genial frase, provavelmente a melhor frase de abertura da literatura mundial:

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

 

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Capa da primeira edição de “A Metamorfose”, em alemão.

 

Que abertura! Um verdadeiro soco no nosso estômago.

Enquanto em, sei lá, 99% dos livros escritos pela humanidade o conflito principal, o ápica, o evento que resulta no grau de mudança mais intensa e irreversível acontece no final da história, em “A Metamorfose”, não. Ele acontece na abertura. É drástico, na lata, uma pancada. Fica impossível não querer ler o resto.

E contrariando ainda mais as tradições literárias, a partir dessa abertura bombástica tom da história é frio. Desapaixonado. A gente ainda está em estado de choque – Como assim, o cara virou um inseto? Por quê? E agora?? – e a narração prossegue tranquilamente, sem nenhum sobressalto. Com a maior naturalidade do mundo.

Se “A Metamorfose” parte de uma premissa absurda, de resto ela é uma narrativa bastante realista, conforme explica o professor Modesto Carone, o mais importante estudioso e tradutor de Kafka para o português, no livro de ensaios “A lição de Kafka” (2009, ed. Companhia das Letras).

“A Metamorfose” não é como um conto de fadas, onde príncipes viram sapos e depois voltam a ser príncipes. E também não é uma história que pode ser explicada pelo sonho, como “Alice no País das Maravilhas”. Quando está prestes a ser decapitada por um exercito de cartas de baralho, Alice de repente acorda e vê que tudo voltou ao normal.

Mas Gregor Samsa não está sonhando. O pesadelo que ele está vivendo, transformado num inseto asqueroso, é a dura e triste vida real.

 

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Retrato de Franz Kafka em 1922.

 

Superado o choque, depois que nos convencemos de que o protagonista virou mesmo inseto e é assim que ele vai permanecer, a história segue relatando as consequências da metamorfose na organização familiar de Gregor Samsa. E é aí que a coisa fica feia de verdade.

É que o Gregor não é apenas filho e irmão. Ele é o provedor da casa, a pessoa que proporciona aos pais idosos e à irmã solteira uma confortável vida de classe média. Então, depois da metamorfose, a questão do nojo e medo é só o menor dos problemas: do que eles vão sobreviver agora?

Lentamente, toda a organização daquela família vai se adaptando aquela nova, e terrível, condição. E o pobre Gregor, agora um inseto que não consegue nem falar, assiste calado à inversão total de sua vida, corroído pela culpa e pela tristeza.

Antes, Gregor era uma pessoa, e agora é um bicho asqueroso. Antes ele era da família, agora é um intruso. Antes ele era o provedor, e de repente se transforma (literalmente) num parasita.

Essas mudanças drásticas de papel familiar e social são ocasionadas por uma metamorfose misteriosa – nunca ficamos sabendo por que Gregor Samsa virou inseto, mas isso pouco importa. O que mais importa é que esta metamorfose que frequentemente é comparada com outras mudanças muito reais que podem virar uma família de cabeça pra baixo – uma doença, uma demissão, uma revelação de identidade sexual…

Ou vai dizer que você nunca viu ou ouviu falar de alguma família que também, de uma hora para outra, não descobriu que um dos parentes também é “um inseto monstruoso”?

Livro nº18: Alice no País das Maravilhas

Seguindo meu roteiro de leituras por alguns dos livros mais queridos e emblemáticos de todos os tempos, chegamos em “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.

 

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Feche os olhos e pense em todas referências culturais de “Alice” que você conhece. São muitas, tenho certeza! Além do desenho da Disney, tem o filme recente que mistura “Alice no País das Maravilhas” com a continuação, “Alice Através do Espelho”, tem camisetas, canecas, cartazes, bonecos… é muita coisa. Prestes a completar 150 de publicação, “Alice” continua sendo uma referência cultural e uma lembrança inerente à nossa infância.

“Alice no País das Maravilhas” nasceu em dois momentos: no ano de 1862, um homem chamado Charles Dodgson (professor de Matemátia e reverendo da Church’s College na Universidade de Oxford) resolveu inventar uma historinha para divertir as três filhas do Reitor da universidade – principalmente a filha do meio, uma menina muito esperta chamada Alice.

 

 

A história foi um sucesso imadiato, é claro. Mas foi só alguns anos depois que o professor Dodgson foi convencido por amigos a publicar a história; para isso ele criou uma versão expandida, com mais personagens e mais aventuras que a versão original. E como ele era extremamente tímido e tinha pavor de ser reconhecido como autor de histórias infantis, ele resolveu assinar a obra com um nome fictício. Foi assim surgiu Lewis Carroll, um dos autores ingleses mais queridos e mais publicados de todos os tempos.

“Alice no País das Maravilhas” foi um grande sucesso editorial, algo como um Harry Potter do século XIX. Era a primeira vez que uma história infantil era estrelada por uma personagem que realmente se parecia com uma criança – ou seja, não era nem um “adulto em miniatura”, nem uma “criança imbecilizada”, pouco realista.

 

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A Alice, por outro lado, é esperta, inteligente e corajosa o suficiente pra enfrentar os absurdos que acontecem com ela no País das Maravilhas.

Nesse mundo onde a lógica e a normalidade são completamente reescritas de acordo com leis indecifráveis, Alice encontra animais que falam e são extremamente nervosinhos; conhece uma lagarta filosófica, um gato que sorri, um bebê que vira porco e um par de malucos que fica tomando chá eternamente. Sem falar na terrível Rainha de Copas, cujo principal hobbie é mandar decapitar as pessoas.

 

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Ora questionando a irracionalidade dos fenômenos que vive, ora aceitando as novas leis como uma boa estudante, Alice se comporta como uma espécie de “ponte” entre o nosso mundo (supostamente lógico e organizado) e o mundo absurdo do País das Maravilhas.

Por ser ainda uma criança, Alice ainda não tem os conceitos de “lógica” e “normalidade” tão cristalizados como nos adultos; Alice é flexível, tem a cabeça aberta, mas sem deixar de ser questionadora. Com essa postura metade meiga e metade rebelde, ela nos convida a enxergar o nosso mundo de uma outra maneira.

Professor de Matemática discreto e dono de um temperamento que muitos definiam como monótono e anti-social, Charles Dodgson parecia ser a pessoa mais improvável para criar um universo tão fantástico e encantador. Todas as censuras e restrições que dominavam sua vida pessoal pareciam se desvanecer na sua persona literária, o Lewis Carroll – um autor carismático, divertido, irônico, que encanta adultos e crianças há mais de um século.

 

Polêmicas

E além da suposta dupla personalidade, outros mistérios envolvem a biografia de Lewis Carroll e continuam sem solução.

A mais grave envolve supostas inclinações dele com relação à pedofilia. Para muita gente, a amizade que ele notoriamente mantinha com crianças muito pequenas, principalmente meninas, simplesmente não podem significar outra coisa. Em seus diários, Carroll descrevia seu relacionamento com elas (incluindo Alice Lidell, que inspirou sua personagem) como se falasse de relacionamentos amorosos.

 

Retrato de Alice Liddell, que inspirou a Lewis Carroll.

Retrato de Alice Liddell, que inspirou a Lewis Carroll.

 

Advogando pelo outro lado, muitos biógrafos de Carroll afirmam categoricamente que tudo isso é mentira. Segundo eles, é um anacronismo aplicar nossa visão do século XXI a outros séculos, quando uma relação de amizade entre homens adultos e crianças podia ser considerada normal em certas circunstâncias. E de qualquer forma, nada nunca foi comprovado – não existem relatos de crianças supostamente abusadas por ele, nem de seus pais.

E mesmo sem provas concretas, muitos estudiosos continuam achando que Carroll dava claros sinais de que sentia atração por crianças, mas que ele também lutava desesperadamente para reprimir isso. O fato de tanta gente negar o óbvio se deve ao carinho que a nós sentimos pelas obras que ele deixou – a gente sempre tenta proteger a imagem das coisas que a gente ama.

 

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Retrato de Lewis Carroll em 1863.

 

Mas verdade é que o mistério continua sem solução.

Pessoalmente, prefiro dar ao Lewis Carroll o benefício da dúvida. Eu sempre tenho um receio quando estudo as biografias dessas personalidades que eu admiro – descobrir que nem sempre os nossos artistas favoritos foram pessoas pessoas perfeitas.

Mas o que importa, no fundo no fundo, são as obras que autores como Carroll nos deixaram. Porque elas sim – elas são perfeitas.

Tag: Confissões de um Bibliófilo

Essa é a primeira tag que eu respondo aqui no Blog: confissões de um Bibliófilo! Me diverti para caramba. Vou procurar outras para responder em breve.

E você, também é um bibliófilo? Será que nós somos parecidos?

 

 

Perguntas:
1. Qual é o gênero de literatura que você se mantém longe?
2. Qual é o livro que você tem na estante e tem vergonha de não ter lido?
3. Qual é o seu pior hábito enquanto leitor(a)?
4. Você costuma ler a sinopse antes de ler o livro? (Esta pergunta foi alterada pela Maria Angélica do canal Vamos Ler; a original tratava de livros enviados antes da publicação e nós não recebemos livros assim; por isso mudamos a pergunta.)
5. Qual é o livro mais caro da sua estante?
6. Você compra livros usados/em sebo?
7. Qual é a sua livraria (física) preferida?
8. Qual é a sua livraria online preferida?
9. Você tem um orçamento (mensal) para comprar livros?
10. Quem você “tagueia”?

 

Conheça também o canal do Ler Antes de Morrer no YouTube! Vídeos novos duas vezes por semana e resenhas inéditas sobre os melhores livros de todos os tempos!

Livro nº 17: Laranja Mecânica, Anthony Burgess

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Um dos maiores ícones culturais do século XX. Até quem nunca viu a badalada adaptação de Stanley Kubric consegue reconhecer a as roupas, a maquiagem, os cartazes…

O que muita gente não sabe é que, mais do que um filme pop, “Laranja Mecânica” é uma sofisticada obra da literatura contemporânea.

 

 


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Uma das medidas da grandeza de uma obra é a capacidade de se manter atual.

Na mesma semana que eu estava lendo “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, a discussão sobre redução da maioridade penal voltou com tudo: a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a redução de 18 pra 16 anos a idade em que adolescentes podem cumprir sanções penais.

Claro que era só um primeiro passo, ainda seriam necessárias muitas etapas reduzir a maioridade penal – mas só esta decisão já refletia bem a dificuldade da nossa sociedade em lidar com a criminalidade juvenil.

E foi este mesmo tema que inspirou “Laranja Mecânica”, nos anos 60 do século passado. Natural de Manchester, na Inglaterra, o escritor Anthony Burgess também assistia naquela época à proliferação de gangues juvenis na sua cidade e país.

Mas, ao invés de situar “Laranja Mecânica” em Manchester, Burgess preferiu imaginar uma metrópole imprecisa, que pode ser identificada como qualquer grande cidade do mundo num futuro não muito distante.

Alex, o protagonista, é líder de uma gangue de adolescentes. Ele passa o dia inteiro à toa, tomando drogas, falando bobagem. E durante à noite se diverte desafiando a polícia com atos de vandalismo, agressão, estupro e até assassinato. E aqui não existe licença poética, não – estes garotos são violentos de verdade. É preciso estômago forte para ler as passagens que descrevem a selvageria.

Mas a violência não vem só da parte dos adolescentes, não. Quando Alex é capturado pela polícia, ele vira cobaia em um procedimento extremamente violento, financiado pelo Estado. O objetivo? Alcançar a “cura comportamental”.

De certa maneira, funciona. Alex vira um carneirinho. Ao menor impulso violento, ele se sente mal, desesperadamente enjoado.

 

Ilustração de Dave McKean dentro da edição comemorativa de 50 anos de "Laranja Mecânica", da ed. Aleph

Ilustração de Dave McKean dentro da edição comemorativa de 50 anos de “Laranja Mecânica”, da ed. Aleph

 

Mas não é só para a violência que Alex se torna incapaz. Tudo que antes lhe dava prazer se torna insuportável – até mesmo ouvir Beethoven, cujas sinfonias antes lhe deixavam em êxtase. Alex se transforma num zumbi depressivo… o que levanta a discussão: até que ponto o Estado pode interferir na liberdade humana em nome da paz social?

 

UMA METÁFORA ABSURDA

 

De tanto ouvir a expressão Laranja Mecânica, a gente esquece de refletir sobre o que isso quer dizer.

Bom, como todos sabem, a laranja é uma fruta. Uma fruta com sabor, textura e aroma delicioso. É uma coisa viva, que amadurece. E não existem duas que sejam exatamente iguais. De certa forma, é como os seres humanos – uma coisa viva, cheia dos mistérios da natureza.

Como então uma Laranja pode ser mecânica? Essa ideia é tão absurda como esperar que seres humanos sejam previsíveis como as máquinas.

 

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E são essas perguntas que o Anthony Burgess faz e procura responder em Laranja Mecânica.

Burgess disse uma vez que escreveu esse livro sem refletir muito no significado da história. Ele só queria trabalhar pra pagar as contas. Mas hoje sabemos também que ele escreveu com uma arma apontada na cabeça – ele achava que tinha uma doença terminal, e só muitos anos depois perceberia que o médico tinha se enganado.

Talvez por conta dessa pressão o resultado tenha sido um trabalho magistral, que adquiriu uma importância que ele jamais poderia imaginar.

O protagonista, o Alex, não é apenas um garoto agressivo. Ele é um ser humano, e por isso ele também é capaz de amar e apreciar arte. Ao “curar” a agressividade do Alex, o Estado também mata o que ele tem de humano – a liberdade de escolha. O governo mata a alma dele.

Então “Laranja Mecânica” é uma apologia da violência? Não. É mais um manifesto à liberdade.

Ninguém nega que a sociedade está violenta demais. Aliás, o mundo todo está cheio de guerras, genocídios e violência urbana.

Mas será que é isso mesmo que queremos – a paz a qualquer custo? Nós não somos seres humanos, criaturas contraditórias, que criam e destroem, gozam e sofrem, desejam e rejeitam tudo ao mesmo tempo?

Para o Anthony Burgess, “É melhor ser mau a partir do próprio livre-arbítrio do que ser bom por meio de lavagem cerebral científica.”

Em outras palavras: melhor ser uma laranja podre, que uma laranja mecânica.

Livro nº 16: Memórias de um Sargento de Milícias

E lá vamos nós a mais um livro clássico da literatura brasileira, e que a maioria de nós só conhece por causa do Vestibular: “Memórias de um Sargento de Milícias”, publicado originalmente em folhetins em 1852.

 

MEMORIAS SARGENTO

 

Sucesso imediato de popularidade, “Memórias de um Sargento” a princípio tinha um autor anônimo, identificado apenas com o pseudônimo “um brasileiro”. Mais tarde, descobriu-se a verdadeira identidade do escritor: tratava-se do médico carioca Manuel Antônio de Almeida (1831-1861), um prodígio que infelizmente não teve tempo de nos deixar outras grandes obras, porque morreu muito jovem, nm naufrágio.

Alguns vão dizer que é exagero chamar “Memórias de um Sargento” de grande obra. Realmente, um folhetim despretensioso, cômico e até com ligeiras inconsistências (tem personagem que começa sendo chamado de sobrinho e depois vira filho, entre outras coisinhas), pode não merecer o mesmo epíteto das obras grandiosas de José de Alencar ou Machado de Assis.

 

 

No entanto, “Memórias de um Sargento de Milícias” tem sido estudado recentemente como delicioso retrato de costumes, grande colaborador da construção da identidade brasileira – muito mais fiel e menos idealizado do que a maior parte dos romances da mesma época.

 

A TRADIÇÃO DO ROMANTISMO

 

Uma palavra que define “Memórias de um Sargento” é originalidade. Basta lembrar o que estava sendo feito em matéria de literatura no nosso tão jovem Brasil daquele período para entender por quê. Em em 1844, ou seja, menos de dez anos antes, Joaquim Manuel de Macedo havia publicado “A Moreninha”, romance considerado pioneiro do Romantismo no Brasil – um gênero que ainda soava para nós como o último grito da moda literária europeia.

Mas quando se fala em Romantismo no Brasil, o grande nome, por excelência, é José de Alencar. Autor de Til, O Ubirajara, Lucíola, Senhora, Iracema, O Guarani, e muitos outros romances Românticos. Livros que hoje são considerados muito difíceis de ler, mas que época fizeram tanto sucesso quanto “A Moreninha”, ou mais.

Essas obras eram a fina flor do Romantismo brasileiro. Em comum, elas tinham:

 

    • Preocupação moralizante, ou seja: grande apreço por desfechos que passavam mensagens alinhadas com a moral e os bons costumes da época, sobretudo do ponto de vista do Império centralizado e da Igreja Católica.

 

    • Atmosfera sentimental. As tramas Românticas, como é de se esperar, quase sempre falavam de amor, embora o gênero de amor variasse: podiam ser amores ingênuos e santificados por outra pessoa ou amor pela pátria; também eram comuns manifestações amorosas arrebatadoras, do tipo que faz os personagens quererem se matar ao menor obstáculo. De qualquer forma, o amor dificilmente era tratado como coisa leve ou cômica. E nunca, jamais, relacionado a desejos sexuais.

 

Tela "Iracema", de José Maria de Medeiros: ápice do Romantismo brasileiro.

Tela “Iracema”, de José Maria de Medeiros: ápice do Romantismo brasileiro.

 

    • E, por fim, esses livros tinham em comum o público-alvo: as classes dominantes. É evidente que pessoas das classes médias e baixas também podia ler estes romances (no remotíssimo caso de a pessoa saber ler), mas eles definitivamente não era escritos para elas – a linguagem era rebuscada e as referências à alta cultura, frequentes. Os protagonistas, se não eram da nobreza ou aristocracia rural, eram idealizados, como a índia Iracema.

 

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO: A RUPTURA

 

Então este era o contexto da literatura nacional quando sai em folhetins o “Memórias de um Sargento de Milícias”. E não é de se estranhar que a crítica da época tenha desprezado a obra. Embora, em vários aspectos, ela fosse representante do Romantismo, ela também parecia fazer questão de desrespeitar todos aqueles valores tão consagrados do gênero. Vamos lá:

 

    • O protagonista é um Anti-herói. Estamos falando, é claro, do Leonardo (especialmente o filho, embora o pai, o “Leonardo-Pataca”, não ficasse para trás). Enquanto os protagonistas Românticos eram exemplos de retidão e bravura, o Leonardo é um herói que não salva ninguém. Capítulo após capítulo, ele só se mete em confusão. Traquinas, mulherengo, trambiqueiro, preguiçoso – Leonardo tem muito mais defeitos que qualidades – mas mesmo assim, a gente torce por ele. Para muitos estudiosos, inclusive, Leonardo é o primeiro exemplar da literatura brasileira de um tipo social que se tornaria muito importante no País: o malandro.

 

Memórias 2

Adaptação “Memórias de um Sargento de Milícias” para HQ, por Rodrigo Rosa.

 

    • Difusão entre lícito e ilícito. Em “Memórias de um Sargento”, retrocedemos até o Rio de Janeiro na corte do Rei D. João VI – ou seja, um período pré-independência, quando o Brasil ainda estava muito mais próximo dos tempos de colônia do que de Império. Neste cenário meio fabuloso, as leis formais até existiam – mas só valiam até a página dois. O que importava mesmo eram as relações de proteção, apadrinhamento e camaradagem. Isso, no Brasil de “Memórias de um Sargento”, era muito mais importante do que a letra fria e objetiva da lei. Assim, todos os personagens cometem desvios morais de diversas naturezas. O padrinho de Leonardo rouba uma herança; a madrinha inventa fofocas para caluniar os vizinhos; e o próprio Leonardo não anda “na linha” por mais que duas páginas seguidas em momento nenhum da história. E sugestivamente, no universo da narrativa, nenhum desses desvios nunca representam um problema grave.

 

    • Ausência de sentimentalismo. Em “Memórias de um Sargento”, as relações afetivas são muito menos graves e importantes que nos livros Românticos tradicionais. Vejamos: hoje você ama uma pessoa, amanhã ela te coloca uns chifres. Aí você sofre um bocado, é claro, faz até alguns escândalos, mas depois de um tempo, a dor passa. E você já parte pra outra. É assim que acontece na vida real, certo? E assim são os amores contados em “Memórias de um Sargento”: muito mais leves e, diversas vezes, engraçadíssimos. E detalhe: o livro não fala claramente de sexo – seria escadaloso demais para a época – mas faz várias insinuações bem humoradas, mostrando que os personagens, de forma alguma, são “santinhos” assexuados.

 

Memórias

Adaptação “Memórias de um Sargento de Milícias” para HQ, por Rodrigo Rosa.

 

    • E por fim: podemos dizer que “Memórias de um Sargento” foi verdadeiramente o primeiro romance popular na nossa literatura. Como indica a opção de publicar primeiro em forma de folhetins em um jornal (estas eram as “novelas” da época), o público-alvo não são os ricos, mas o povo. Quem era esse povo em 1850? O pequeno contingente de pessoas livres e minimamente escolarizadas, como imigrantes portugueses, profissionais liberais, entre outros. Um dos maiores prazeres da leitura é encontrar um narrador brincalhão, irônico, debochado, que conversa com o leitor. E, deixando de lado a pompa e erudição, fica bem evidente que o autor procura um estilo despretensioso, que se esforça pra ser leve e cômico.

 

QUESTÃO DE ESTILO

Os professores nos colégios e cursinhos sempre insistem que “Memórias de um Sargento de Milícias” é uma obra meio híbrida entre as duas escolas literárias mais importantes do século XIX, o Romantismo e o Realismo.

Se por um lado, o livro abandona os valores consagrados pelo Romantismo, valorizando um jeito de narrar menos idealizado, por outro, a ambientação e desfecho são leves demais para concluir que ele antecipa o Realismo. “Memórias de um Sargento de Milícias” tem um pouco dos dois estilos.