Bookshelf Tour – Parte 2

Saiu a segunda parte da minha Bookshelf Tour!

Nessa parte da estante eu guardo os livros da escola, livros da editora Cia de Bolso, meus primeiros livros em inglês e algumas surpresinhas mais…

 

 

E não se esqueça: A série Bookshelf Tour continua todas às terças-feiras, às 11h.

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12º livro: Mar Morto, Jorge Amado

 

MAR MORTO

 

Respondendo àquela pergunta do Zé Carioca – não, eu nunca fui à Bahia.

Mas sou como tantos brasileiros que nunca subiram as ladeiras do Pelourinho nem fotografaram o Elevador Lacerda, e mesmo assim sentem que conhecem a Bahia. E se nós temos essa impressão, então certamente o mérito é de dois artistas que exportaram “a baianidade” para o Brasil e o Mundo – Dorival Caymmi e Jorge Amado.

Começando por Caymmi, vamos ouvir a canção “É doce morrer no mar” (1941), composta a partir do livro de hoje. Solta o som aí!

 

 

Com canções que falam do mar, de amor e de desgraças, Dorival Caymmi criou uma identidade sonora para a Bahia que sobrevive até hoje. E em sinergia com essa obra, Jorge Amado construiu uma produção literária que levou o Brasil para o mundo inteiro. E que tem como um dos principais símbolos o romance “Mar Morto”, de 1936.

Eu, que já tinha lido “Capitães da Areia” e “Jubiabá”, dois livros que Amado escreveu também nos anos 1930, esperava encontrar um romance político, cheio de críticas às hipocrisias da sociedade capitalista. Vale lembrar que aos 20 e poucos anos Jorge Amado era comunista, membro atuante do PCB, e que boa parte do que ele escreveu no início da carreira refletia a ideologia.
*Obs: o marxismo era ideologia predominante entre a geração de escritores modernistas da década de 1930; você pode ler mais sobre ela no post sobre “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

Mas em “Mar Morto”, não achei quase nada disso. Encontrei na verdade uma história de amor épica e trágica. Que mais se parece um poema do que um panfleto político. E essa surpresa foi maravilhosa.

 

 

Embalado no canções tristes dos marinheiros e pescadores do cais de Salvador, Jorge Amado conseguiu criar um cenário mais que realista para sua história – “Mar Morto” se passa num ambiente quase mitológico, que remete os poemas clássicos da antiguidade, aos quais Amado, leitor voraz, certamente conhecia.

Tal qual Ulisses, o marinheiro Guma, herói de “Mar Morto”, enfrenta o perigo místico do mar enquanto persegue o seu destino. Que não é voltar para casa, como no caso do herói grego, mas trabalhar duramente para um dia morrer sob o desígnio dos deuses. No caso, da deusa.

A deusa é Iemanjá, rainha dos mares. Poderosa e ciumenta, ela exige que seus filhos venham ao encontro dela no fundo do mar. E não adianta rezar, não adianta implorar – ela sempre descarrega sua fúria nas águas, para depois recolher suas oferendas na forma dos corpos dos marinheiros.

 

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Na terra, ficam as mães e as esposas, como Lívia, mulher de Guma. Ela passa os dias morrendo de aflição porque sabe que seu homem mais dia menos dia vão morrer no mar, e nada pode fazer para impedir. Porque sabe que o destino deles é morrer, e o delas é sofrer.

Essa é a mitologia do povo do cais, é em cima dela que Jorge Amado construiu a obra fez tantos brasileiros se apaixonarem também por Iemanjá.

Paulistana incrédula, acostumada com a poesia concreta das nossas esquinas, eu passei o livro inteiro esperando esses personagens se revoltarem contra essa vida terrível. Você sabe: quebrando as correntes milenares da opressão e da miséria! Lutando por um futuro em que os homens não precisam morrer no mar aos vinte e poucos anos e as mulheres não precisam ficar viúvas ainda mais novas do que isso!

Mas que ingênua. Até o finalzinho do livro, eu não tinha entendido que o mundo de “Mar Morto” é o mundo do mito, não é o mundo da História. E que no mundo do mito os personagens não contestam o seu destino. Eles amam o destino, o aceitam e dão a ele um significado sublime; uma razão para viver. E Jorge Amado, mesmo militando pela causa socialista, entendeu isso. E fez o Brasil inteiro se apaixonar.

Bookshelf Tour! Parte 1

Quantos livros há na biblioteca do Ler Antes de Morrer?

Não faço a menor ideia! Mas a partir de hoje eu vou mostrar para você cada um dos livros da minha estante, que eu venho juntando há uns 15 anos. São livros que eu compro, que eu ganho, que eu roubei dos parentes… Bora fazer um Bookshelf Tour?

 

 

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11º livro: A Casa dos Espíritos, Isabel Allende

 

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Em certo momento em “A Casa dos Espíritos” (Isabel Allende, 1982), um personagens afirma que o “marxismo não tem a menor chance de dar certo na América Latina, porque o marxismo é uma doutrina ateia, prática e funcional, que esquece o lado mágico da vida”. E os latino-americanos sempre precisam do mágico, de algo que eles possam venerar.

De certa forma, essa frase resume “A Casa dos Espíritos” – um livro em que magia e política se entrelaçam de maneira indissolúvel.

Muitos o definem como um livro “espírita”. Não é verdade. Pelo menos, não espírita segundo as definições científicas e filosóficas de Allan Kardec. Mas não é um livro revolucionário tampouco, um panfleto socialista qualquer. Ele consegue ser uma combinação totalmente original (e apaixonante) das duas coisas.

 

 

“A Casa dos Espíritos” gira em torno da história da família Trueba, com as suas mulheres extraordinárias e um único e terrível patriarca. Datas e cidades são muito bem estabelecidas. Na verdade. Mas pela narrativa fica mais ou menos evidente que as coisas acontecem no Chile, pátria da autora Isabel Allende, num período que vai do início do século XX até os primeiros anos da ditadura militar comandada por Augusto Pinochet.

São 70 anos de história latino-americana e também familiar. Sem conseguir decidir qual das duas é mais absurda. Por um lado, conhecemos a brutalidade e conservadorismo do patriarca Esteban Trueba, self-made man latino, que começa apenas com um bom nome e transforma-se em poderoso latifundiário. Por outro, nos encantamos com a doce subversão da sua esposa Clara, sua filha Blanca, e sua neta Alba.

 

Elenco da adaptação de "A Casa dos Espíritos" para o cinema (1993)

Elenco da adaptação de “A Casa dos Espíritos” para o cinema (1993)

 

Clara, Blanca e Alba. Três nomes que significam a mesma coisa, e não por obsessão pela pele branca (como já foi dito), mas pelo elemento mágico presente nas três personagens – todas elas têm uma inclinação para a clarividência, pra magia, elas têm a alma iluminada.

O dia-a-dia dos Trueba é eterno conflito entre a praticidade de Esteban com a espiritualidade das mulheres. E o texto de Allende, deliciosamente, nos presenteia com as maluquices, personagens pitorescos e constante comunicação entre os vivos e os mortos, enquanto o resto do mundo se moderniza.

O país vai deixando para trás o passado colonial e as ruas vão se enchendo de carros e companhias multinacionais. Trabalhadores do campo e da cidade começam a reivindicar seus direitos, e velhas oligarquias pela primeira vez são contestadas. Até que finalmente as eleições são vencidas pelo partido socialista. E a ordem precária que havia, dentro e fora da casa dos Trueba, se desfaz em poeira.

 

Isabel Allende Llona em Barcelona, 2008

Isabel Allende Llona em Barcelona, 2008

 

Isabel Allende é sobrinha de segundo grau de Salvador Allende, o presidente eleito em 1970 que acreditava ser possível usar a democracia para implementar o socialismo no Chile.  viveu intensamente o momento em que militares invadiram o palácio presidencial e depuseram à força o tio dela da presidência. Sentiu na pele a perseguição política, não só dela como de todos os outros simpatizantes do regime de Allende. Fugiu para o exílio pra não ser presa e talvez assassinada.

Hoje, com a vida reconstruída nos Estados Unidos, Isabel Allende se consagrou com uma respeitável carreira literária. Já são mais de vinte romances, coletâneas de contos e peças de teatro, que quase sempre falam sobre família e América Latina.

Mas mesmo com o passado de perseguição e violência, não existe em “Casa dos Espíritos” qualquer sinal de amargura ou revanchismo. Pelo contrário. A grande mensagem da “Casa dos Espíritos” é a de que a vida, afinal de contas, é mesmo mágica. Não adianta ficar remoendo ódio e alimentando vinganças contra os que nos fizeram mal, porque no fundo todos nós somos peças de um mesmo quebra-cabeça gigantesco que é a vida. E que o passado, o presente e o futuro na verdade acontecem simultaneamente, num ciclo que num para de se repetir.

10º livro: O Mundo de Sofia

 

SOFIA

 

Em grego, “Sofia” (Σοφία) significa sabedoria.

Nunca uma personagem recebeu um nome tão adequado. E algo me diz que a quantidade enorme de pequenas Sofias que hoje se matriculam no primeiro ano da escola (eu pelo mesmo conheço algumas) tem algo a ver com essa adequação.

Provavelmente as mães dessas crianças encontraram inspiração no romance que transformou Filosofia em cultura pop nos anos 1990: “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder (Noruega, 1991). Em todo o mundo, toda uma geração de adolescentes foram introduzidos à estranha ciência chamada Filosofia graças a esta obra. E muitos adultos também.

Durante a minha formação escolar e universitária, tive o privilégio de estudar Filosofia com diferentes professores. Ambas as faculdades, Direito e Jornalismo, da área de humanas… nem se eu quisesse podia ter escapado.

 

 

Mas meu primeiro contato com o assunto não foi na sala de aula, foi em “O Mundo de Sofia”, aos treze anos. Lembro de ter adorado descobrir coisas tão novas e fantásticas, que nunca tinham passado pela minha cabeça antes – como a Teoria das Ideias de Platão. Mas foram as surpresas da trama, sobretudo, que me deixaram boquiaberta – porque, antes de ser um livro escolar, “O Mundo de Sofia” é um livro de ficção, muito empolgante e imprevisível.

Se bem que, pensando o bem, o fato do livro não ser escolar não significa que não seja didático…

Mas vamos do começo. “O Mundo de Sofia” é um livro que um professor de Filosofia de um colégio na Noruega teve a ideia de escrever para ajudar o alunos a entender melhor a matéria. Ele percebeu que não havia quase no mercado livros de filosofia que os adolescentes pudessem se interessar, e mesmo os adultos – porque a maioria das pessoas morre de medo de Filosofia, esse assunto tão complicado.

O livro conta a história de Sofia, uma adolescente como qualquer outra qualquer que, um belo dia, ao voltar da escola pra casa,  descobre bilhetes anônimos na caixa do correio contendo perguntas muito esquisitas:

  • “Quem é você?”
  • “De onde vem o mundo?”

Depois ela começa a receber, também pelo correio, longas cartas anônimas com um curso completo de filosofia ocidental – desde que ela surgiu, na Grécia antiga, e ao longo de toda a História.

E aí começa a aventura da Sofia. Enquanto vai aprendendo sobre os pensadores gregos e romanos, os medievais, renascentistas e iluministas, acontecimentos cada vez mais bizarros sucedem na vida pessoal dela.

Até o ponto em que, com ajuda do professor de Filosofia – a princípio anônimo, mas que depois se revela – Sofia descobre um grande segredo sobre sua própria existência… Um segredo que, aos treze anos, também quase virou a minha vida de cabeça para baixo. E que eu tenho certeza de que vai virar a sua vida também.

 

9º livro: Vidas Secas, Graciliano Ramos

 

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Foi com imenso prazer que eu reli esta obra-prima do Graciliano Ramos, “Vidas Secas”, publicada em 1938. A primeira vez tinha sido no primeiro ano do colégio, ou seja, dez anos atrás (caramba, dez anos já??).

Eu me lembro que nós lemos em sala o capítulo sobre a morte da cachorra Baleia, provavelmente o capítulo mais famoso desse livro. No fim da leitura, a professora de Português – ainda me lembro do nome dela, Eneida, dava nota baixa para todo mundo – ficou com os olhos cheios de lágrimas. Todo mundo percebeu “o mico” e se matou de rir… coitada da professora Eneida.

 

 

Isso foi há dez anos. Então, quando eu reli o capítulo que fala da morte da Baleia (ela estava doente, morre por causa de um tiro de espingarda dado pelo dono, Fabiano), eu chorei mais que a professora. Porque a vida dá muita volta…

 

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

 Vidas Secas, Graciliano Ramos

 

Neste pequeno trecho, o Graciliano consegue com poucas palavras provocar uma grande comoção. Provavelmente Baleia é um dos personagens mais queridos da literatura brasileira, e o capítulo dedicado a ela não tem mais do que oito páginas (na minha edição, da ed. Record). E essa é a principal característica de “Vidas Secas”: texto simples, nem um pouco sentimental e ainda assim muito poderoso.

Esse tipo de narração não foi escolhido por acaso: quando o Graciliano Ramos escreveu Vidas Secas, ele queria um narrador que também fosse seco – ele tinha que ter uma fala áspera e dura pra que o leitor conseguisse entender a dureza da vida dos personagens.

Porque Vidas Secas é um livro que fala de uma família nordestina que sofre com o problema da seca.

No começo do livro, eles já estão há meses perambulando pela caatinga, em busca de água e de comida, até que finalmente a seca termina e eles se instalam numa casa abandonada. No final, algum tempo se passou e a seca retorna, obrigando a família mais uma vez a fugir pra destino incerto, porque ficar ali era o mesmo que morrer de fome.

O livro termina do mesmo jeito que começa porque o problema da seca no Nordeste é cíclico, vai e vem, não acaba nunca – desde os tempos de Graciliano até hoje, quase nada mudou.

 

“Romance Desmontável”

 

Quando conto aqui o final da história, não estou sendo spoiler. A genialidade de “Vidas Secas”, o que ele tem do original, não tem tanto a ver com o desfecho da trama (já que, na visão de Graciliano, o desfecho não poderia ser outro além de uma nova fuga, início de um novo ciclo de miséria).

Mas “Vidas Secas” é um romance diferente, montado como se fosse uma coletânea de contos. Cada capítulo conta episódios independentes da vida dessa família durante o período entre duas secas, e cada capítulo tem começo meio e fim – por isso costuma-se dizer que “Vidas Secas” é um romance “desmontável”

A família tem cinco membros, Fabiano (o pai), sinha Vitória (a mãe), os dois filhos pequenos (que não tem nome), e a cachorra Baleia, que é tão apegada a todo mundo que é como se fosse um membro da família.

 

Seca no Nordeste X Seca no Sudeste

 

Atualmente, o Sudeste do Brasil vive um período de seca como nunca registrada antes. Os principais reservatórios que abastecem a grande São Paulo e o Rio de Janeiro, as duas cidades mais ricas e populosas do país, estão desesperadoramente baixos. O racionamento já está valendo em inúmeras cidades do estado, e em cidades como Itu já houve até levantes populares em frente à prefeitura por falta d’água. Na grande São Paulo, milhões de pessoas já sofrem com cortes diários de abastecimento.

Por isso, diariamente escuto pessoas pela cidade comparando essa estiagem histórica com a secas que castigam o Nordeste desde que o mundo é mundo. Como crítica à falta de planejamento, má administração dos recursos públicos etc. o comentário tem até algum valor. Mas, depois de ler “Vidas Secas”, ficou claro para mim que a seca daqui e a seca de lá ainda são bem diferentes.

A seca que o Fabiano e a família dele enfrentam não é só da natureza, é também a vida seca de quem vive à totalmente margem da sociedade.

 

Graciliano Ramos mostra que são DUAS as forças de antagonismo que os personagens precisam enfrentar:

  • A natureza (que manda a estiagem, mata as plantações, os animais, mata tudo)
  • O latifúndio (a organização da sociedade, a distribuição injusta e cruel da terra)

 

Modernistas da “Geração de 30”

 

Como profissão, o alagoano Graciliano Ramos exercia o jornalismo. Mas ele ficou mesmo conhecido por pertencer a uma geração de escritores modernistas que ficou conhecida como “geração de 30”. A essa geração, também faziam parte jovens autores como Jorge Amado (na Bahia), Erico Verissimo (no Rio Grande do Sul) e Rachel de Queiroz (no Ceará). Em comum, todos tinham a veia ideológica mais ou menos inspirada no marxismo.

Em 1935, antes de publicar “Vidas Secas”, Graciliano chegou preso pela polícia política de Getúlio Vargas, por vagas acusações de subversão. Este período na prisão deu origem a belíssimos livros publicados posteriormente, como “Memórias do Cárcere” (publicado postumamente, em 1953) e o próprio “Vidas Secas” (1938). Como ele escritores, outros escritores daquela geração foram perseguidos.

Por isso é tão evidente que, na visão de Graciliano, compreender os caprichos da natureza era tão difícil para sertanejos como Fabiano e sinha Vitória como entender o mundo dos “homens brancos”, os “homens da cidade”. Fabiano e a família são vítimas da distribuição injusta da terra. São analfabetos, vivem isolados e nunca conheceram outra vida que não fosse uma vida de exploração e de miséria.

 

Animalização do Homem

 

Se no capítulo sobre Baleia, a cachorrinha é descrita de maneira humanizada, o que acontece com os outros personagens é exatamente o oposto. Fabiano e a família vivem quase como bichos, inclusive porque são incapazes de conversar. Um outro trecho famoso que mostra a carência de linguagem do Fabiano:

 

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

Vidas Secas, Graciliano Ramos

 

Como o Fabiano é incapaz construir raciocínios por meio de palavras, ele não consegue de verbalizar o ele pensa, sente e deseja. E pior: não consegue se defender se uma sociedade que o rouba, humilha ou simplesmente ignora.

Então, “Vidas Secas” é uma obra que combina a denúncia social com uma revelação – a revelação da humanidade que existe por dentro das pessoas tão embrutecidas e castigadas no sertão do Nordeste. Por meio do texto preciso e sensível, a mergulha na alma delas, nos seus sentimentos mais íntimos. E descobre que tanto o Fabiano, como a sinha Vitória, os dois meninos e até a cachorra Baleia são personagens de grande força interior e acima de tudo de muito caráter.

8º livro: Os Miseráveis, Victor Hugo

 

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Os Miseráveis, clássico do francês Victor Hugo, sempre está presente nas listas de maiores livros da história recente, cânones da literatura ocidental, etc. Poucos sabem, porém, que o romance foi planejado como um blockbuster, uma obra extremamente popular.

O lançamento de Os Miseráveis em 1862 foi uma grande aposta do mercado editorial francês, depois do sucesso de outros títulos de Hugo, como O Corcunda de Notre Dame. O projeto de marketing foi grandioso, e provavelmente inédito, para a época: jornais e livrarias de dezenas de países, incluindo o Brasil, anunciaram com semanas de antecedência o lançamento do mundial do livro, já traduzido para diversos idiomas.

 

 


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Embora hoje seja vendida em volume único, a obra de Victor Hugo foi originalmente desmembrada em 5 livros, a serem lançados separadamente: Fantine, Cosette, Marius, Idílio da Rua Plumet e Epopeia da Rua Saint-Denis e, por fim, Jean Valjean.

Soa familiar? Pois é, a estratégia é usada até hoje em sagas adolescentes para multiplicar as vendas. E deu certo: o primeiro volume, Fantine, virou instantaneamente um best-seller mundial, para alívio dos editores que tinham investido tão alto naquele projeto.

Ou seja, se você sempre teve receio de ler as obras de Victor Hugo – os solenes tijolos de mais de mil páginas – saiba que Os Miseráveis foi escrito para ser lido pelo povo, e não por meia dúzia de intelectuais. Por mais que a linguagem antiga cause um pouco de estranheza, a obra tem o único requisito necessário para que qualquer um, em qualquer época, consiga apreciá-la: uma história boa e bem escrita, que envolve e emociona.

No entanto, resumir o enredo não é tarefa das mais fáceis. Por ser tão grande, “Os Miseráveis” tem dezenas de tramas paralelas e protagonistas nucleares.

Mas dá pra dizer que a saga toda gira em torno de um personagem, Jean Valjean – um homem que passou quase 20 anos preso por roubar um pedaço de pão. Depois de sair da prisão e sofrer várias discriminações, Jean Valjean passa por uma experiência transformadora, que o leva a tomar uma difícil resolução: tornar-se em um homem honrado. Mas (e isso é o mais importante) não de acordo com as leis dos homens, e sim com as leis de Deus.

 

Retrato de Victor Hugo.

Retrato de Victor Hugo.

 

Esta me pareceu ser a principal lição de Victor Hugo em Os Miseráveis  – que, nunca é demais reforçar, é uma produção romântica e moralista. Em algum momento da história humana (talvez, sempre), as leis criadas pelos homens seguiram por uma direção e as leis ensinadas por Deus, por outra.

A lei que sempre predomina, e que faz vítimas todos os personagens que o Victor Hugo define como “miseráveis”, é a lei dos homens. Uma lei Inflexível, rigorosa, incapaz de conceber a recuperação do ser humano – era este o espírito legislação criminal francesa no período pós-Revolução.

Para Victor Hugo, a miséria de todos os personagens (seja econômica ou moral) é resultado dessa inversão de valores. Até mesmo a miséria do antagonista, o Inspetor Javert, que passa anos perseguindo Jean Valjean.

Assim como todos os os personagens, Javert também é um miserável, porque sustenta sua existência na confiança cega nas instituições humanas, na ordem e na lei. Ele é rigoroso, não admite exceções, é incapaz de sentir piedade. Javert orienta suas ações segundo o inflexível princípio de que “ser bom é fácil, difícil é ser justo”.

Contraditoriamente, todas as decisões de Jean Valjean são baseadas nos ideais de auto-sacrifício, da caridade e do amor ao próximo. Um embate filosófico e moral do qual nós, os leitores, somos juízes. Ou melhor, como parece querer comprovar Victor Hugo – no qual nós também nos sentamos no banco dos réus.