7º livro: Vinte Mil Léguas Submarinas, Julio Verne

 

JULIO VERNE

 

Um Capitão que rompe os laços com o continente e começa uma jornada sem fim por todos os mares da Terra, colecionando tesouros científicos e protegendo os povos oprimidos contra a sanha destruidora do Homem. Este é o enredo de “Vinte Mil Léguas Submarinas”, um dos clássicos de ficção científica com que Julio Verne nos presenteou há mais de cento e cinquenta anos.

Confesso que tinha preconceito com a obra do Verne. Acostumada a ver seus livros em coleções infanto-juvenis, eu achava que “Vinte Mil Léguas” seria um livro pueril, até meio boboca. Nem quando era criança eles me chamavam atenção, eu preferia os livros assustadores da coleção Vagalume…

 

 

Quanto a isso, tenho que agradecer a Penguin Companhia por lançar uma edição nova do clássico em roupagem adulta, com uma ilustração de capa belíssima. Comprei pela capa, e não me arrependi!

Claro que não deixei de perceber que “Vinte Mil Léguas” tem elementos fantásticos que agradam as crianças: monstros gigantescos, batalhas navais, heróis destemidos. Mas por trás da fantasia, existem reflexões sensíveis e críticas muito severas à realidade política em que Julio Verne viveu.

O personagem mais complexo e fascinante é o Capitão Nemo, o que rompe os laços com a humanidade para viver à deriva no mar. Embora não saibamos muito sobre ele, fica claro que ele tem um ódio profundo pela “civilização”, ou os Impérios que no século XIX colonizavam meio mundo e destruíam tudo o que viam pela frente. Mais do que distância dessas nações (Inglaterra, França, etc), ele quer vingança delas.

 

Capitão Nemo, ilustração clássica de George Roux.

Capitão Nemo, ilustração clássica de George Roux.

 

Para consegui-la, ele desenvolve um navio submarino (tecnologia que não existia em meados do século XIX, quando o livro foi escrito) super potente e auto-sustentável. Movido a energia elétrica, grande novidade científica da época, o submarino Nautilus era mais veloz do que qualquer navio de superfície, mais resistente, mais mortífero, e capaz de suportar a pressão de centenas de atmosferas dos mares mais abissais. Além disso, conseguia produzir a própria energia, e água potável para uma tripulação de dezenas de homens.

Tudo parece absurdo, mas é tão bem explicado – com as de ciências que a gente aprende no ensino fundamental – que é impossível não acreditar.

 

Julio Verne (1828 - 1905)

Julio Verne (1828 – 1905)

 

Mas o grande mérito de “Vinte Mil Léguas Submarinas” é que ele consegue nos transportar para uma época de ouro da ciência, quando cientistas obstinados falavam pela primeira vez em evolução das espécies, placas tectônicas, dinossauros, bobinas elétricas.

Lendo o texto apaixonado de Julio Verne, a gente compreende o entusiasmo que deve ter sentido o primeiro homem que nadou com as arraias no fundo do oceano… Ou com o primeiro biólogo que conseguiu ver por completo a grandeza das baleias e dos moluscos gigantes.

“Vinte Mil Léguas Submarinas” é um livro sobre maravilhas e encantamento. E sobre um homem, precursor dos bioativistas, que só encontrou a paz quando se refugiou no meio da natureza.

 

6º livro: O Pintassilgo, Donna Tartt

 
PINTASSILGO

 

“O Pintassilgo” (por Donna Tartt, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, 728 págs) foi um dos maiores sucessos de 2014. Vendeu milhões, ainda mais depois de ter ganhado o prêmio Pulitzer de Romance do Ano, um dos mais importantes prêmios literários do mundo.

Até o número de visitantes do museu na Holanda onde fica a pintura que dá nome ao livro, o Mauritshuis Museum, aumentou por conta do sucesso mundial da obra. Todos querem ver O Pintassilgo, do mestre holandês Carel Fabritius, o pequeno quadro que vira objeto de obsessão no romance de Donna Tartt.

Mas uma rápida pesquisa na internet mostra que, quase tão numerosos quanto os leitores que amaram, são também os que ficaram decepcionados com o livro. E eu, definitivamente, pertenço a essa turma.

Não vou negar que “O Pintassilgo” tem muitos méritos. Não é qualquer livro que consegue segurar a atenção dos leitores por mais de 700 páginas, ainda tendo como centro da narrativa um pequeno quadro belíssimo, é verdade, mas quase desconhecido fora da Holanda.

 

"O Pintassilgo" (em holandês, Het puttertje), de  Carel Fabritius - 1654

“O Pintassilgo” (em holandês, Het puttertje), de Carel Fabritius – 1654

 

É também impressionante o talento descritivo da autora Donna Tartt. Cada humano, rua, casa, quarto, móvel ou ladrilho presentes no livro são descritos com abundância e minúcia. Tartt diz que demora cerca de 10 anos para escrever um livro. E eu acredito.

Mas é justamente a maior qualidade do livro, a riqueza de informações, que desvia a atenção para o que deveria ser o ponto principal de qualquer livro: a história.

Um livro não se faz só com caracterização, mas também com eventos e mudanças. Se a gente conseguisse descartar as centenas (não é força de expressão, são centenas mesmo) de páginas preenchidas por descrições, diálogos expositivos ou delírios narcóticos, sobrariam eventos suficientes para preencher um livro de 200 páginas, se muito.

 

 

“O Pintassilgo” tem reviravoltas muito boas e surpreendentes, mas perdidas num mar de palavras. As extravagâncias do enredo (para muitos, maior pecado do livro), foram para mim o único motivo para resistir na leitura até o fim. Eu estava curiosa de saber como tudo ia terminar. E como me decepcionei.

Mas vamos do começo. “O Pintassilgo” conta a história de Theodore Decker (Theo), um garoto de 13 anos. Certa manhã, ele acompanha sua mãe em um museu em Nova York que exibia pela primeira vez O Pintassilgo, o quadro favorito da mãe, uma estudiosa de Arte. De repente, uma bomba coloca tudo pelos ares: o museu tinha sido alvo ataque terrorista (algo na mesma linha dos atentados de 11 de Setembro, mas que o livro não se preocupa em explicar muito bem).

 

Museu Mauritshuis, na Holanda, onde está exposto O Pintassilgo.

Museu Mauritshuis, na Holanda, onde está exposta tela O Pintassilgo.

 

Nesse momento terrível, dois eventos contraditórios modificam o destino de Theo para sempre. Primeiro, ele perde a mãe, a pessoa que ele mais amou em toda a vida. E, no mesmo momento, ele ganha um tesouro: o quadro O Pintassilgo. Acontece que, logo depois da explosão, no meio da confusão e dos escombros, um velho agonizante pega o quadro e insiste para que Theo o leve embora consigo. O garoto, desorientado, acaba aceitando e foge do local com o quadro embaixo do braço, sem que ninguém mais perceba.

O resto do livro gira em torno das consequências desses acontecimentos. Sozinho no mundo, sem parentes dispostos a lhe dar amor, Theo se apega ao quadro como uma espécie de compensação pela perda da mãe. É a única forma que ele encontra de enfrentar a transitoriedade e caos da vida.

Mas a premissa tão interessante (o que acontecerá com um garoto comum que se apodera de uma obra de arte valiosa e única?), conforme os anos passam, e centenas páginas também, vai se enfraquecendo.

Em vários momentos, o quadro é esquecido em meio a tramas paralelas e os delírios provocados por abuso de álcool e drogas. O protagonista Theo, por quem no começo nos comovemos e torcemos com fervor, cresce para se tornar um adulto fraco, desinteressado pela vida, com tendências autodestrutivas, covarde e antiético.

Durante muitos capítulos cada vez mais extenuantes, assistimos Theo em sua vida de inércia, escolhendo sempre os caminhos mais fáceis, aceitando tudo o que lhe sugerem sem resistir, mergulhando cada vez mais no escape das drogas e recusando-se a crescer.

Nos primeiros capítulos, “O Pintassilgo” promete uma história tocante sobre família, amadurecimento e finitude, mas não entrega. Ao invés disso, entope o leitor com muito texto e pouca história, além de um protagonista por quem a gente desiste de torcer.

5º livro: Um Conto de Natal, Charles Dickens

 

SCROOGE1

 

Continuo atualizando o novo blog com resenhas e vídeos antigos, até chegarmos aos livros atuais! A quinta resenha em vídeo do Ler Antes de Morrer no YouTube foi sobre “Um Conto de Natal”, um livro que eu li, evidentemente, às vésperas do Natal.

Eu estava zapeando a TV de madrugada, lá pelo dia 23 de dezembro, quando peguei pela metade uma das mais recentes adaptações desta obra de Charles Dickens para o cinema – o filme “Scrooge”. É uma animação da Disney com Jim Carrey emprestando as feições e os trejeitos amalucados para o personagem principal, o velho capitalista Ebenezer Scrooge.

Logo me lembrei que tinha “A Christmas Carol” em algum lugar da minha estante, e resolvi que era hora de finalmente conhecer a história do maior sovina da literatura inglesa. Vamos a ele:

 

“Scrooge era um tremendo pão-duro! Um velho sovina, avarento, mesquinho, unha de fome e ganancioso! Duro e áspero como uma pedra de amolar, não era possível arrancar dele a menor faísca de generosidade. Era solitário e fechado como uma ostra. A sua frieza congelou o seu rosto e encompridou ainda mais o seu nariz pontudo, murchou suas bochechas e endureceu seu caminhar; deixou seus olhos vermelhos, azulou seus lábios finos e tornou ferino o tom de sua áspera voz. Uma camada de gelo cobria sua cabeça, suas sobrancelhas e seu queixo áspero. Onde ia, levava consigo sua frieza, que gelava o escritório nos dias mais quentes do ano e não degelava nem um grau no Natal.”

 

Trecho emprestado de “Um Conto de Natal”, ed. L&PM Pocket

 

Ebenezer Scrooge continua sendo o protagonista da história de Natal mais adaptada e parodiada da atualidade, provavelmente perdendo só para a história do próprio Jesus Cristo.

Além das dezenas de adaptações para o cinema, teatro e televisão (especialmente nos Estados Unidos, o que acabou disseminando o conto para o resto do mundo), “Um Conto de Natal” também inspirou um personagem que todo mundo conhece: o Tio Patinhas, de Walt Disney, que em inglês é conhecido como “uncle Scrooge”.

 

 

Mas, se o tio Patinhas da Disney é sujeito engraçado e simpático apesar da mania de pão-duro, o mesmo não acontece com o velho protagonista de “Um Conto de Natal”. O Scrooge original é realmente um sujeito amargo e sem coração, que só pensa em acumular dinheiro e rechaça qualquer aproximação carinhosa, seja do seu sobrinho, seja do bondoso funcionário a quem ele paga muito mal.

É uma alma atormentada, tanto por rancores do passado, quanto pelo sentimento de cobiça, que o preenche por completo.

A redenção de Scrooge começa, no entanto, no momento em que o fantasma do seu sócio, um velho tão ganancioso quanto ele, aparece na sua frente numa noite de Natal. O velho Marley tem uma aparência horrível, arrasta correntes pesadas pelos pés, e a mensagem que ele vem trazer deixa Scrooge apavorado: por ter sido tão egoísta durante a vida, Marley estava sendo punido após a morte. E o mesmo aconteceria com Scrooge, se ele não se arrependesse.

Mais tarde, naquela mesma noite, outros três espíritos aparecem para ajudar Scrooge na sua jornada de salvação: os fantasmas do Natal passado, presente e futuro. E assim os personagens voltam no tempo e relembram a infância e juventude do velho pão-duro, espiam a alegria das ceias de Natal de famílias amorosas, como a do pobre funcionário explorado por Scrooge, e vislumbram o terrível futuro dele, caso Scrooge recusasse deixar o amor e a amizade entrarem em seu amargurado coração.

 

Marley's_Ghost-John_Leech_1843-detail

 

“Um Conto de Natal” não é nem de longe a obra principal de Charles Dickens, que também é autor de clássicos como “Oliver Twist”, “Grandes Esperanças”, “Um Conto de Duas Cidades”, e muitos outros. Dizem até que estava endividado e escreveu o conto meio à toque de caixa, para fazer dinheiro rápido.

Mas o certo é que “Um Conto de Natal” é um dos livros mais populares e influentes de Dickens até hoje. A adoração dos americanos por ele é tamanha que praticamente todos os filmes de Natal que chegam até nós na Sessão da Tarde são inspiradas na sua mensagem.

Mais de um século depois que Dickens escreveu seu conto, o Natal virou um celebração pasteurizada, comemorada do mesmo jeito no mundo todo. Hoje, quando consumimos produtos culturais relacionados ao Natal (filmes, livros, canções), quase sempre eles contêm mesma lição de moral aprendida à duras penas por Ebenezer Scrooge naquela noite. Não que não seja uma bela lição. É que parece que ela é a única que sobreviveu à globalização.

Terá o Charles Dickens imaginado até onde chegariam as suas palavras? Com certeza não. Por isso é que é tão importante ler “Um Conto de Natal”, pelo menos uma vez da vida, e conhecer a fonte de inspiração de tantas histórias natalinas da modernidade.

 

4º livro: A Emparedada da Rua Nova, Carneiro Vilela


EMPAREDADA_Fotor

 

Talvez vocês se lembrem. No começo de 2014, a minissérie da Globo “Amores Roubados” fez um sucesso danado. Mesmo quem não assistia, como eu, ouviu falar das cenas fogosas entre o personagem do Cauã Reymond e todo o elenco feminino da novela. E também do proibidíssimo affair entre o Cauã e a atriz Ísis Valverde na vida real, que, segundo rugiam os sites de fofoca, levou ao fim do casamento dele e tal.

Minisséries de início de ano costumam dar repercussão. Já faz algumas semanas que a minha timeline no Facebook anda cheia de fotos da bunda da Paola Oliveira, em outra dessas novelas.

 

 

Apesar de não ter assistido a nenhuma dessas minisséries, eu gosto de novelas, sempre gostei. E não concordo, de maneira alguma, com aquele preconceito de que elas são toscas e emburrecedoras. Novelas são uma evolução de um gênero literário chamado folhetim, que foi popular no mundo todo nos séculos XIX e XX. Aqui na América Latina, elas ainda têm relevância cultural muito grande. E também podem cumprir uma importante função cultural, principalmente quando apresentam os brasileiros a algumas jóias da nossa cultura que nem a gente conhece.

Não estou exagerando. A minissérie “Amores Roubados”, por exemplo, foi inspirada num romance pernambucano muito antigo e muito famoso por lá que no resto do Brasil quase ninguém conhece: “A Emparedada da Rua Nova”, de Carneiro Vilela.

Foi graças ao sucesso da minissérie que eu encontrei uma edição caprichada do romance à venda numa livraria da Avenida Paulista, com um folheto em letras garrafais destacando a relação do livro com a série. E funcionou, eu comprei.

 

2015-02-19 15.48.37

 

Pesquisando sobre a obra e seu autor, descobri que “A Emparedada” foi publicada pela primeira vez em 1886 e depois foi republicada em folhetins (olha eles aí) num jornal de Recife entre agosto de 1909 e janeiro de 1902.

Vale lembrar que naquela época o Brasil ainda era um país rural de população quase analfabeta, e que apenas uma minoria tinha hábito de consumir jornais. Mesmo assim, a históra se popularizou de tal maneira que passou a se confundir com a realidade – e até hoje tem gente se lembra dela como um tipo de lenda urbana.

“A Emparedada da Rua Nova” conta a históra de três mulheres da alta sociedade que se apaixonam pelo mesmo homem, um mulato sem eira nem beira mas muito sedutor, chamado Leandro. Evidentemente, uma situação como essa não tem como terminar bem, e uma delas acaba tendo um fim terrível – é emparedada viva numa casa na Rua Nova, centro do Recife.

 

Carneiro Vilela

Retrato de Carneiro Vilela (1846-1913)

 

Sexo, desigualdade social, vingança, assassinato. A trama parece moderna demais para ter sido escrita no século XIX, quando a maioria dos folhetins ainda trazia personagens idealizados, amores puros e assexuados, finais felizes. Por isso, nem deve ter sido muito complicado para os roteiristas da Globo transportarem a história para os dias atuais. E ainda assim, “A Eparedada da Rua Nova” segue há mais de cem anos como um livro desconhecido fora de Pernambuco.

Pesquisando sobre Carneiro Vilela, que era jornalista e fundou a Academia Pernambucana de Letras, encontrei algumas pistas para esse contemporâneo de Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Olavo Bilac ter caído no ostracismo, ao contrário dos colegas do sul.

A professora da UFPE Fátima Maria Batista de Lima, que organizou um livro com cartas dele, acredita que o pode ter condenado a obra Vilela é sua característica mais saborosa – a mordacidade. Ninguém escapava da sua prosa corrosiva: os ricos, os pobres. Os burgueses, os nobres, os parasitas, os vagabundos. A igreja, a imprensa. A polícia, a política. As beatas, as putas. Os jovens, os velhos.

 

emparedada

Reprodução do primeiro capítulo de “A emparedada da Rua Nova” no Jornal Pequeno de Recife.

 

Não que lhe faltassem argumentos. Todas as classes e instuições da época de Vilela, por baixo de uma cortina moralidade, tinham mais vícios do que virtudes. Jornalista atento e sem nada a perder, ele divertia-se em escrutinar esses podres e exibi-los à luz do dia.

“Vilela falava de tudo e de todos. Tal conduta explica, de certa maneira, o ostracismo que lhe impuseram”, explica a professora da UFPE, no artigo O Rei dos Desafetos. “Sua lâmina era tão cortante que, quando lhe faltava assunto, ele falava mal dele mesmo. Um homem desses não podia ser muito amado”, completa outro professor da UFPE, Anco Márcio.

Por essa razão, minha experiência com “A Emparedada da Rua Nova” foi uma oportunidade rara de saborear, em doses equilibradas: acidez, História do Brasil e entretenimento de primeira qualidade.

Uma oportunidade que você também não pode perder. Aproveite enquanto durarem os estoques da “Emparedada” nas livrarias fora de Pernambuco. A gente nunca sabe se ele vai cair no esquecimento de novo…

 

3º livro: Medo e Submissão, Amélie Nothomb

 

SUBMISSÃO_Fotor

 

Faz um pouco mais de um ano que faço aulas de francês, duas vezes por semana.

No começo, não sabia nem o que responder quando minha professora perguntava: “Ça va?” (“Tudo bem?”). Então, agora que já me comunico mais ou menos como uma criança de quatro anos, não posso negar que avancei bastante.

Mas eu não fazia francês há nem seis meses quando a professora mandou ler “Stupeur et tramblements” (ou Medo e Submissão, na edição em português da editora Record). É um dos best-sellers da autora belga Amélie Nothomb, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Mas de alguma maneira, sempre grudada no Google Tradutor, eu consegui chegar até o fim.

Isso mostra que “Medo e Submissão” é um livro simples e fácil de ler, obviamente. Mas pode esconder a característica principal: a qualidade literária dessa obra.

“Medo e Submissão” é na verdade um livro autobiográfico. Amélie Nothomb é filha de um diplomata belga. Portanto, ela passou boa parte da infância e adolescência no exterior. O principal desses países foi o Japão, onde o pai dela foi embaixador.

 

Amélie Nothomb

Amélie Nothomb

 

Lá, Amélie frequentou a escola e ficou super contente quando arranjou o primeiro estágio numa empresa multinacional, a Yumimoto. E é aí que começaram os problemas. Apesar de ter crescido no Japão, falar japonês fluentemente e de se sentir completamente em casa quando estava em Tóquio, Amélie Nothomb não é japonesa. Ela é ocidental. E isso faz toda a diferença.

Por isso a estadia dela na Yumimoto foi uma sucessão infindável de desastres, narradas com uma linguagem cáustica e tragicamente bem-humorada.

 

 

Desde que publicou “A Higiene do Assassino” em 1992, Amélie Nothomb se tornou uma celebridade pop literária na Europa. Seu livros, publicados anualmente, são sempre curtos, com temática incomum e linguagem ácida. E aguardados ansiosamente por uma legião de fãs.

Eu mesma, depois de ler “Medo e Submissão”, me entusiasmei tanto com o estilo da Amélie que procurei outros livros dela para ler. Achei  L’hygiene de l’assassin e Acide Sulfurique em francês até com bastante facilidade, e por preço acessível.

Mas necas. Meu francês não chegou a tanto. Quem sabe daqui a um ano..

2º livro: Til, José de Alencar

 

Livro Til_Fotor

 

Til foi o segundo livro que eu resenhei em forma de vídeo para o Ler Antes de Morrer, e também foi o segundo livro que li do escritor José de Alencar. O primeiro tinha sido “Iracema”, que fazia parte da lista de livros obrigatórios da Fuvest quando eu prestei Vestibular.

Sei muito bem que as lista de livros dos Vestibulares hoje em dia incluem “Til”, e que muita gente vai acabar vindo parar neste blog para procurar um resumo. Mas não foi por isso que resolvi ler este livro.

Resolvi ler “Til” para tentar tirar o trauma que eu fiquei do José de Alencar desde que li “Iracema”, quando tinha 16 anos. Foi um dos livros mais chatos que li na minha vida escolar, e olha que eu já era uma estudante que gostava muito de ler. Enfrentei numa boa o Eça de Queiroz e até o Guimarães Rosa, mas José de Alencar simplesmente não me descia.

Acho que, depois de ler “Til”, consegui fazer as pazes com ele, afinal de contas! Mas foi graças ao que eu aprendi sobre Filosofia, Literatura e História da Arte, na faculdade. E também, é claro, ao meu amadurecimento pessoal.

Aí vai vai um roteiro que eu preparei para você que também vai se aventurar a ler “Til”. Fique atento: eu não sou nenhuma professora de cursinho, apenas sistematizei as ideias que me ajudaram a interpretar o livro, ok? Espero que te ajude também.

 

CATEGORIA LITERÁRIA: ROMANTISMO

 

Mas o que é Romantismo? Define-se como “Romantismo” um movimento filosófico que influenciou as artes no ocidente num período que vai mais ou menos do fim do século XVIII até meados do século XIX. No Brasil, o Romantismo foi moda por ainda mais tempo.

Romantismo é sinônimo de declarações de amor, casais apaixonados e serenatas ao luar? Sim e não.

Sim, porque o amor, a paixão e o antigo costume de fazer serenatas ao luar eram expressões dos sentimentos humanos, e este era um assunto que interessava muito aos artistas Românticos. E não, porque eles também exploravam outros sentimentos, inclusive os mais obscuros, como a atração pela morte e o fascínio pelo lado oculto e místico da vida. O Romantismo também gostava muito de testar a capacidade da imaginação humana, muitas vezes chegando a conclusão de que ela era infinita.

Somando tudo, chegamos a uma época em que floresceram romances, poemas, quadros e sinfonias que falam de grandes amores, mas que geralmente eram impossíveis e por isso os amantes se suicidavam de desespero no final. Também temos as histórias fantásticas, como do Conde Drácula – uma criatura mortal e ao mesmo tempo irresistível. E foi nessa época também que os contos de fadas e histórias medievais como a do Rei Arthur e do Mago Merlin, voltaram à moda e ganharam novas versões.

Mas uma outra faceta muito, mas muito importante mesmo do Romantismo é que ele valorizava chamada “cultura nacional”. É que no fim do século XVIII e início do XIX muitos novos países foram se consolidando, não só aqui na América mas também na Europa, como Alemanha, Itália e Noruega.

Os artistas Românticos sentiam uma necessidade enorme de falar sobre a cultura de seus países. Mas atenção, eles não eram historiadores ou sociólogos, eles eram artistas! Eles preferiam contar os mitos e contos folclóricos dos seus povos, e não fazer reportagens. E no final dessas narrativas, quase sempre havia alguma lição de moral.

 

TIL, DE JOSÉ DE ALENCAR

 

ilustração: Sergio Kon

ilustração: Sergio Kon, in Til, ed. Ateliê Editorial

 

Foi nesse contexto que o José de Alencar escreveu e publicou o romance “Til”. O Brasil era um país jovem e ainda meio sem identidade nacional – Alencar sentia que era seu dever como artista contar as histórias do povo brasileiro.

Com essa ideia em mente, ele escreveu romances de muito sucesso sobre os “primeiros brasileiros”, os índios – “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) e “Ubirajara” (1874). E também escreveu sobre os brasileiros das regiões mais afastadas da capital, como em “O Gaúcho” (1870) e em “Til” (1872), que se passa no interior de São Paulo em alguma época histórica meio indefinida.

Em todos os casos, ele tratou suas histórias como mitos fundadores da identidade brasileira.

Por isso, é perda de tempo ler Til como um registro histórico dos usos e costumes do  no século XIX. José de Alencar não tinha preocupação nenhuma de fazer um documentário sobre essa região. Ele simplesmente usa o interior de São Paulo como cenário mítico para contar uma história que fala de valores humanos universais: o amor, a vingança, a honra, o altruísmo. Para isso, cria personagens pouco realistas – ou seja, idealizados.

 

VOCABULÁRIO

 

Essa é uma das maiores dificuldades, que afugenta os estudantes como o Diabo foge da cruz.

Escritores como José de Alencar usavam a diversidade lexical como um recurso poético, que transportava o leitor para um ambiente mitológico e ainda valorizavam o texto. É bem provável que as palavras e expressões “difíceis” usadas por ele em “Til” fossem estranhas até mesmo para os leitores do século XIX – vale lembrar que ele próprio colocou algumas notas de rodapé com o significado de algumas palavras.

E Alencar não escrevia assim só em “Til”; também nos romances indianistas ele fez uma cuidadosa pesquisa das línguas indígenas para inserir nos romances. Ele acreditava a língua dos índios era a melhor fonte na qual ele podia se inspirar para escrever histórias realmente brasileiras. E o mesmo vale para “Til”, Alencar buscou usar palavras faziam parte do vocabulário dos caboclos que viviam no interior de São Paulo na sua época.

Hoje em dia, o resultado de tanta pesquisa vocabular são obras que parecem escritos em outro idioma!

Meu conselho: ao ler “Til”, resista à tentação de consultar o glossário ou dicionário o tempo todo, senão a leitura fica truncada e muito cansativa.

A maioria das palavras difíceis podem ser entendidas pelo contexto. Minha técnica pessoal é essa: eu só consulto o glossário quando percebo que não entender aquela palavra vai impedir que eu compreenda o sentido geral da frase.

Lembre-se que os escritores Românticos valorizavam todos os tipos de sentimentos humanos. Pois bem, experimente, ao invés de entender racionalmente o sentido de cada palavra difícil, deixar se levar pela história e tentar sentir o que elas significam…

Garanto que funciona.

 

TRAMA

 

Aqui temos um aspecto em que o romance se diferencia um pouco dos mitos e narrativas populares, que geralmente são diretos e lineares. “Til” tem um enredo complexo, que vai se revelando aos poucos para o leitor, com auxílio de recursos como flashback. Isso mostra que José de Alencar era, além de tudo, um escritor que dominava técnicas sofisticadas de narrativas.

Não vou resumir o livro aqui nesse post, para isso existe um montão de resumos na internet. Mas acho importante destacar quais são as duas tramas principais de “Til”, que se desenrolam simultaneamente ao longo da obra:

  1. Uma história de vingança. Ribeiro, marido da mãe de Berta, quer se vingar de Luiz Galvão. Aqui, o livro se parece mais com uma clássica história de aventura, cheia de emboscadas e perseguição.
  2. Santificação de Berta, metaforizada na mudança de nome para “Til”. É no desenvolvimento dessa trama que José de Alencar revela o lado poético e metafísico da história. A menina Berta, protagonista de “Til”, vai deixando de lado todas as pequenas ambições particulares em direção a uma vida dedicada a fazer o bem aos outros.

 

PERSONAGENS

 

Para fechar, vou fazer um breve resumo dos personagens do livro, de acordo com suas características. Ajuda a não se perder enquanto a história vai e vem…

 

Os adolescentes (cerca de 15 anos)

Berta / Til – esbelta, charmosa, pés descalços, todos se apaixonam por ela; bondosa, coloca os outros em primeiro lugar

Miguel – garoto caipira, corajoso, altivo, atraente, carrega espingarda

Afonso – sinhozinho, corajoso, pedante, bonito

Linda – sinhazinha, meiga, tímida, sonhadora, cheia de frufrus

 

Os adultos

Luiz Galvão e D. Ermelinda – senhores da fazenda, valorizam as aparências, pais de Afonso e Linda

Ribeiro – comerciante, vingativo, conspirador

 

Os oprimidos

Jão Fera – matador de aluguel, gigante e assustador, mas com grande coração e senso de honra

Zana – negra velha e louca, vive assustada por fantasmas

Brás – garoto deficiente mental, endiabrado, indomável

 

1º livro: Relato de um Náufrago, Gabriel García Márquez

 

O blog Ler Antes de Morrer finalmente entra em 2015!

Reformulei a página, troquei de servidor, enfim – fiz uma recauchutagem geral! E agora que tudo ficou pronto, eu tinha duas alternativas: importar tudo do blog antigo, exatamente como estava, ou recomeçar o blog do zero.

Pois eu vou explicar por que decidi recomeçar tudo do zero, e é na verdade um motivo muito simples: porque cresci. Desde que comecei esta página, há quatro anos, evoluí pessoal e profissionalmente. Revi meus textos e resenhas antigas e, no meio de muita coisa boa, encontrei outras que hoje deixaria de fora.

Se antes, eu era uma estudante que escrevia tudo à lápis, sinto que agora chegou o momento de passar tudo a limpo com caneta esferográfica.

Você que já acompanha o Ler Antes de Morrer há muitos carnavais, não se preocupe: todos as resenhas sobre livros que eu já li (já eram quase cem…) vão voltar para cá. E ainda melhores, mais completas e com comentários em vídeo. E em meio a tudo isso, é claro, novas leituras, resenhas inéditas.

Vamos recomeçar a nossa contagem com o primeiro livro que resenhei em vídeo: Relato de um Náufrago, de Gabriel García Márquez. Vida longa ao Ler Antes de Morrer!

 

Relato de um Náufrago

autor: Gabriel García Márquez // ano de publicação: 1955 (jornal El Espectador) / 1970 (livro)

Quando se fala no saudoso Gabriel García Márquez, a imagem que vem à cabeça geralmente é a do vencedor do prêmio Nobel, que imaginou e transformou em palavras eternas o realismo mágico de Cem Anos de Solidão.

O que poucos leitores brasileiros sabem, porém, é que o talento literário de Gabo, como era carinhosamente chamado em sua Colômbia natal, começou a formar-se bem antes da condecoração em Estocolmo. A primeira escola de letras de García Márquez foi a realidade objetiva, porém não menos fantástica, do jornalismo.

 

NÁUFRAGO1

Foi justamente numa reportagem que Gabo pela primeira vez causou o que se pode chamar, para dizer o mínimo, de rebuliço nacional: Relato de um Náufrago. Texto que foi publicado originalmente no jornal El Espectador, onde o escritor trabalhava como repórter plantonista. E curiosamente, nem carregava assinatura dele.

Aconteceu o seguinte. Naquele ano de 1955, a Colômbia celebrava um novo herói nacional: um certo Luis Alejandro Velasco, marinheiro que tinha sobrevivido dez dias à deriva em um bote, depois que o navio da Marinha colombiana que o transportava sofreu um acidente no mar do Caribe.

A versão oficial da história, cantada nas rádios, televisões e jornais da época pelo novo herói Velasco, dava conta de que a causa do acidente no destroyer em que ele viajava tinha sido uma forte tormenta no mar.

Mas o relato publicado meses mais tarde pelo El Espectador, proveniente do próprio Velasco e transformado em texto por García Márquez, trazia uma causa bem diferente para o acidente – um esquema ilegal e imoral, que tinha como cúmplice o próprio governo colombiano. Que, não custa recordar, vivia na época sob uma ditadura militar.

A publicação deste novo relato, entre outras consequências, fechou as portas do El Espectador. E também cortou pela raiz a carreira de Velasco como “Robinson Crusoé colombiano”, transformando-o em inimigo público. O povo nunca mais ouviria falar do antigo herói, que passou o resto da vida no esquecimento.

Quanto a Gabo, foi só em 1970 que ele se animou a republicar a reportagem assinando com o próprio nome, já que a mudança de governo na Colômbia e o auto-exílio na Europa o protegiam de novas represálias.

E apesar de afirmar constantemente que aquela história não era sua, e sim de Velasco, é sem dúvida de García Márquez o mérito de transportar o leitor ao meio do mar do Caribe, prendendo a atenção da primeira à última página para uma história tão podre que chega a parecer fantasia, e que o jovem jornalista provou já possuir o talento para contar.

 

Começar de Novo…

O meu nome é Isabella, e eu gosto de ler. Isso é tudo que é necessário saber para acompanhar este blog.

 

isa_Fotor

 

Mas como alguns de vocês ainda não conhecem o Ler Antes de Morrer, não faz mal uma explicação a mais.

A primeira versão do blog “Ler Antes de Morrer” nasceu há quatro anos, sem nenhuma pretensão, no dia em que eu me desafiei a ler 1001 livros.

– Será que é possível?, as pessoas me perguntavam.

Claro que é.

– Mas você vai levar a vida toda!, elas insistiam.

Tanto melhor. Vai ser uma danada duma vida boa.

– E se você não chegar nem perto?, elas acrescentavam.

Aí, quanto mais longe eu for, mais valerá a pena ter tentado.

Em quatro anos de história, muita coisa aconteceu.

Eu quase completei a minha primeira centena de livros. E paralelamente, eu me formei na faculdade de Direito e depois de Jornalismo. Estudei teatro e participei de duas peças. E depois arrumei emprego na tevê, em vários programas diferentes: fui produtora, fui editora, fui repórter e até apresentei!

 

colagem2

 

Enquanto isso, a audiência do blog aumentava, aumentava. A cada mês eu via o número de visitas subir: gente que gostava de literatura, gente que estava se preparando para o Vestibular, gente que voava perdida no Google e aterrissava no blog.

Só quem não aparecia mais por lá era eu. Entre as faculdades, os TCCs, os estágios e depois o emprego, não dava tempo para mais nada!

Mas eu não estava contente. Algo me dizia que a verdadeira Isabella Lubrano não estava lá, no meio de uma redação, com o telefone grudado na orelha o dia inteiro.

Eu queria continuar lendo, continuar escrevendo. E queria aplicar tudo o que eu tinha aprendido na TV, mas dessa vez do meu jeito, do jeito que eu achava mais legal. Foi quando surgiu o canal do Ler Antes de Morrer no YouTube, com resenhas e comentários sobre livros em vídeo.

 

colagem3

 

E a repercussão está sendo tão legal que uma coisa ficou clara para mim: eu não podia deixar o blog morrer. Ainda tenho tanta coisa pra fazer!

Então agora, quatro anos depois, o Ler Antes de Morrer renasce.

Renasce com roupa nova, com resenhas em texto e também vídeo, mas com a mesma curiosidade e amor pela leitura de sempre.

Entre, fique à vontade. Vai ser o maior prazer ter a sua companhia nessa jornada rumo a 1001 livros!